A 7ª Camada da Arte Rubricas

Como Hollywood começou a perder a sua essência!

Como ávido apreciador de cinema tenho sentido que os filmes que Hollywood tem produzido ultimamente (especialmente blockbusters) têm decaído em qualidade. As razões para isto podem dever-se a diversos fatores, no entanto será justificável que aconteçam dado que possuem sempre recursos para melhorar?

Nunca nos podemos esquecer que Hollywood é uma indústria e, como tal, tudo gira em torno do lucro monetário que as produções conseguem arrecadar. No entanto, a sensação que transmite é que o dinheiro é utilizado como disfarce, ocultando a “suposta” qualidade do filme em questão. Existem alguns exemplos onde isto é evidente e, devido à relação de que dinheiro gere dinheiro, os próprios entusiastas da 7ª arte deixam-se levar pelo aparente deslumbre que, por norma, existe apenas para camuflar a fraca qualidade no filme.

Podemos começar com os seguintes franchises:

  1. Fast and Furious;
  2. Transformers;

Estes dois casos revelam que Hollywood quando encontra uma potencial fonte de rendimento não consegue fugir à ganância. Tanto o primeiro filme de Fast and Furious e de Transformers surgiram como filmes isolados. Nos tempos do seu lançamento, o que ditou a transformação destes filmes em franchises foi precisamente as receitas de bilheteira. Seria necessário continuar uma história que, independentemente de até poder ter algum potencial de sequela, acaba por ser conclusiva?

Responder a esta questão é complicado, visto que ambas as sagas abordam temáticas diferentes e têm igualmente potenciais distintos de continuação de enredo. No caso de Fast and Furious, algumas das sequelas que surgiram após o seu grande sucesso de estreia até conseguiram superar o produto original. Isto porque os estúdios aproveitaram o conceito inicial e acabaram por criar algum carisma, recuperando personagens do “filme-mãe” e expandindo o seu universo.

No entanto, até o conseguirem, tiveram algumas tentativas falhadas: 2 Fast 2 Furious e Tokyo Drift, que serviram de teste para averiguar se o franchise se tornaria lucrativo. O resultado foi que não, e ambos os filmes ficaram aquém das expectativas no box office. Mas os estúdios, de forma a não terminar com aquele entretenimento com base em corridas clandestinas, decidiu trazer de volta os personagens que compuseram o filme original, garantindo assim que o fluxo de dinheiro não estagnasse. Terá sido esta uma boa decisão? No caso de Fast and Furious a resposta não é tão linear quanto isso. Apesar de algumas das sequelas serem consideradas superiores em termos de qualidade dos filmes anteriores, isto não justifica a continuação desmesurada do próprio franchise. Após a estreia do primeiro filme em 2001, a história de Dominic Toretto e Brian O’Conner não necessitaria propriamente de um seguimento, mas o sentimento de nostalgia abateu-se sobre o público assim que se soube que estes iriam voltar a partilhar o ecrã.

O fascínio pela adrenalina e a procura por entretenimento fácil tomou controlo das massas. Como conclusão, Fast and Furious é um franchise que sobrevive, não da sua história, mas sim pela componente visual exagerada que, por conseguinte, faz as “delícias” dos seus fãs. No entanto, isto não é significado de que o franchise tenha conseguido superar as suas dificuldades mais óbvias. A sua própria audiência é caracteristicamente ampla porque a narrativa insere-se num meio apelativo às novas gerações de espectadores. Corridas frenéticas, ação desmiolada e atores de grande nome no cinema de ação acabam por ser um chamariz fácil. Isto demonstra que apenas é valorizado o preço do bilhete de cinema daqueles que o compram do que propriamente trazer-lhes algo de educativo ou novas experiências de cinema. Por fim, podemos dizer que apesar do franchise ter altos e baixos durante o seu seguimento, ele está programado apenas para alcançar receitas atrás de receitas.

Outro caso que ilustra esta situação é o de Transformers. O primeiro filme, realizado por Michael Bay, acabou por ser um grande sucesso, ainda que a sua narrativa não seja propriamente muito criativa. Apesar do que muitos possam considerar “um festim visual”, os efeitos especiais utilizados e a quantidade de explosões camuflam as falhas de enredo óbvias do filme. Após o sucesso, Michael Bay não iria deixar de continuar a façanha de prolongar uma história sem história; nisto surgiram entretanto 4 sequelas realizadas pelo mesmo, e ainda aguardamos por mais umas quantas sequelas e spinoffs que já entraram em produção. Michael Bay é conhecido precisamente por ser o “mestre” do exagero visual, onde na maioria dos seus filmes somos levados por constantes cenários de destruição massivos e, a nível de argumento, retém-se muito pouco.

Para concluir, este tipo de franchises são criados propositadamente para arrecadar milhões e milhões de dólares em bilheteiras, tirando o foco principal do público que deveria ser a execução da história e sua respetiva evolução e não apenas se concentrar no aspeto visual.

Enquanto que estes franchises não foram previamente programados, sendo que as sequelas surgiram à custa do sucesso do original, existem outros problemas relacionados com certas adaptações literárias para cinema.

Dois casos que poderão retratar este exemplo são precisamente:

  1. Twilight;
  2. 50 Shades of Grey;

Ao contrário dos exemplos anteriores que gradualmente foram ganhando fãs, Twilight e 50 Shades of Grey têm ainda uma vantagem acima dos anteriores. Esta vantagem consiste no facto de haver um produto literário prévio à criação dos filmes, que já contava com uma base de fãs grande e dedicada. Assim que houve luz verde para a produção dos filmes com base nos livros, foi-se criando um burburinho que alimentou as esperanças dos fãs.

No entanto, estas adaptações não se preocuparam em adicionar aos produtos cinematográficos alguma originalidade, caindo nos típicos clichés românticos que já abundam no cinema desde a sua criação. A mediocridade é o que define melhor este tipo de atitude: criar filmes a partir de produtos literários que, por si só, não são inovadores, torna a experiência de cinema desprovida de significado. Isto é, Twilight e 50 Shades of Grey aproveitaram-se do facto dos livros de onde foram adaptados serem bestsellers para trazer esse público-alvo para o cinema. O motivo que mais define este tipo de entretenimento é o de não haver uma preocupação em distanciar o produto de origem com o produto de cinema.

Numa opinião pessoal, se o material de origem não possuir uma qualidade substancial, cabe ao cinema incutir elementos novos de forma a alcançar um público para além dos leitores das ditas obras literárias. Se tivermos em conta que este tipo de cinema é direcionado especificamente para a massa adolescente e para um público feminino que procura um escape ao seu dia-a-dia romântico, podemos concluir que estas adaptações tornam-se fúteis, superficiais, ocas de conteúdo e desprovidas de mensagem. Contudo, como Hollywood procura sempre por novas fontes de rendimento, um veículo fácil de o ganhar é precisamente na manipulação deste tipo de público.

Como referido anteriormente, a nostalgia é um fator de grande importância no cinema e televisão da atualidade. Se tivermos em conta a quantidade de remakes, reboots, revivals e spinoffs que abundam no panorama cinematográfico de hoje em dia, podemos já assumir de antemão que Hollywood já se tornou tendencioso a apostar naquilo que sabe que lhe vai trazer dinheiro. O exemplo mais evidente disto é Star Wars que após 10 anos regressou aos grandes ecrãs com uma nova história, recuperando ainda assim personagens da trilogia original. Embora os fãs tenham ficado deliciados com as notícias, seria necessário recuperar algo que está tão enraizado em várias gerações passadas numa em que o cinema está a passar por uma fase de industrialização?

Por muito que Star Wars tenha continuado com o seu universo numa galáxia muito distante, o maior determinante de sucesso foi precisamente a questão da nostalgia. Revermos Luke Skywalker, Princesa Leia, Han Solo, Chewie e restante companhia é certamente um motivo de felicidade, mas até que ponto recuperar estas personagens foi o suficiente para que os filmes terem selo de qualidade? J. J. Abrams teve um peso nos seus ombros que poucas pessoas gostariam de ter assim que se disponibilizou para realizar o primeiro capítulo da mais recente trilogia, após o trabalho de George Lucas. Dar seguimento a uma trilogia clássica é um assunto delicado. Talvez Star Wars consiga lucrar um pouco com os avanços tecnológicos da atualidade mas, no fundo, o grande problema reside na história que deve manter as suas origens ao mesmo tempo que deve trazer algo inovador.

De facto, quando The Force Awakens estreou a nostalgia abateu-se de tal forma sobre todos os fãs que o filme se tornou um sucesso comercial. Embora considere que a 7ª entrada da saga seja um produto com qualidade, tudo o que se seguiu acabou por ceder à crescente industrialização pela qual o cinema está a passar. Spinoffs foram planeados e novas séries de televisão poderão surgir brevemente para continuar a capitalização de Star Wars até à exaustão. A Disney tem apostado fortemente no marketing e procurando realizadores que sejam eles próprios fãs da saga para trazer estas novas histórias à vida.

Rogue One é um spinoff que conta a história de como Jyn Erso e um grupo de rebeldes obtiveram os planos da Death Star para a destruir. Pessoalmente considero esta nova história desnecessária, pela única razão de que apenas serviu para todos os anos haver um filme do universo de Star Wars a estrear. Obviamente que a Disney explora isto em prol de ganhar mais uns trocos. De forma a tentar cativar o maior número de fãs da saga, colocar Darth Vader nesta história foi uma estratégia que, apesar de nostálgica, agiu como um mecanismo de manipulação. Rogue One não é mais do que um “fogo de vista” feito exclusivamente para encher novamente os bolsos da Disney entre capítulos. Poderemos esperar o mesmo de Solo e todos aqueles títulos que nos são desconhecidos mas cuja produção já foi confirmada?

Devido a esta constante sede de dinheiro, The Last Jedi (seguimento da história de The Force Awakens) foi a mais recente vítima. Rian Johnson, que foi o realizador escolhido para trazer este filme às telas, deixou-se levar pelo encanto visual, enquanto deixou o enredo à mercê do que os fãs especulavam que acontecesse. Isto é, The Last Jedi é um produto industrial na sua totalidade. O aspeto visual, apesar de fantástico, tomou rédeas sobre o enredo, dividindo os fãs e, numa opinião pessoal, baixando (a um nível extremo) a qualidade da saga.

Quando os efeitos especiais se sobrepõem ao avanço do enredo e ao desenvolvimento de personagens, podemos contar com um descréscimo de qualidade. Isto no sentido em que The Last Jedi ignora a construção de enredo do filme anterior, apresenta ao espectador novos personagens sem dimensão nem carácter, descarta personagens com bastante potencial e não tem estômago para avançar com uma história out of the box e original. Tudo isto é fruto do desleixo da Disney, que não se importa de sacrificar uma história para agradar aos olhos do público. Outro grande problema (e exemplo de despreocupação por parte da produtora) foi a contratação de realizadores distintos para entradas diferentes na nova trilogia, não ligando à expressão “estar no mesmo barco”.

No caso da televisão isto é visível nas mais recentes temporadas de Game of Thrones e The Walking Dead, em que as teorias dos fãs assumiram o controlo do processo criativo por parte dos argumentistas de ambas as séries.

Em Game of Thrones os efeitos especiais foram utilizados com maior abundância nesta 7ª temporada, mas a história sofreu um golpe imenso com a falta de material pelo qual os argumentistas anteriormente se guiavam. George R. R. Martin é um escritor que não tem pressas em lançar o próximo livro, deixando a equipa da série à nora e que sente a pressão do estúdio para dar continuidade à história. Em The Walking Dead a violência gratuita e explícita parece ter chocado uma grande percentagem de fãs e cujas queixas afetaram a própria produção da série, tornando-a leve, monótona e irrealista perante o mundo que retrata.

Se em Game of Thrones as teorias disparam via internet, os criadores/argumentistas acabam por ser afetados pelos crescentes desejos do público relativamente às suas personagens favoritas. Ou seja, o motivo que tornou a série num clássico instantâneo era precisamente a insegurança que causava nos seus espectadores que viam as suas personagens prediletas serem chacinadas violentamente e sem aviso prévio, num caso explícito de imprevisibilidade. Como consequência disto os fãs tornaram-se um veículo responsável pela propaganda da própria série e os seus palpites e deduções ficaram virais, influenciando a criação da nova temporada em termos de enredo. Isto, por um lado, pode parecer algo positivo, sabendo que os fãs vêm as suas teorias tornarem-se realidade, mas por outro remove completamente a criatividade e a imagem que sempre a definiu.

Em The Walking Dead estamos perante um mundo dominado pela violência, e o facto de a censurarem retira o seu carisma. Se The Walking Dead se insere num meio pós-apocalíptico onde a violência é uma constante e a morte pode surgir a qualquer momento, porque é que haveriam de diminuir a sua quantidade? Porque razão ficam os fãs indignados com algo que é claramente necessário para a série ser minimamente credível? São precisamente estes problemas que têm colocado estas séries em decréscimo de qualidade. Deixar os fãs dominar o processo de escrita ou de execução de uma série ou filme leva a que haja uma grave quebra de originalidade e de impulso para arriscar por parte de quem as produz.

Os exemplos são bastante abundantes em ambas as áreas do entretenimento, mas nenhum deles me desiludiu tanto como The Hobbit. Peter Jackson, responsável pela melhor trilogia alguma vez criada em cinema – The Lord of the Rings (não discutível), teve bastantes problemas em conseguir trazer The Hobbit para o grande ecrã. Além de ser uma adaptação extensa de uma obra infantil relativamente curta, Peter Jackson sofreu um acidente antes da produção e nunca quis o cargo de realizar estas prequelas, insistindo para que o seu substituto fosse Guillermo Del Toro (The Shape of Water e Pan’s Labyrinth).

No entanto, Del Toro rejeitou a proposta precisamente por saber que o universo de Tolkien no grande ecrã apenas pôde ser transposto por Jackson. Devido à pressão dos estúdios (sempre a pensar nas receitas) Jackson foi forçado a assumir a cadeira de realização contra a sua vontade, e o resultado está à vista.

Enquanto que The Lord of the Rings (uma produção mais antiga e com menos orçamento) utiliza figurantes para trazer à vida as criaturas que habitam a Terra Média, em The Hobbit eles foram substituídos por efeitos visuais. Se já era desnecessária a divisão da adaptação em três filmes, tornou-se ainda menos apelativo quando vemos o realismo que tanto acarinhámos em The Lord of the Rings não ser mais do que meras imagens digitais. Ao longo dos filmes cria-se a nostalgia em voltar à Terra Média e de rever Gandalf the Grey, Bilbo Baggins (agora na pele de Martin Freeman) e Gollum, mas esta nostalgia não foi conseguida a 100% devido à produção descontrolada e desorientada. Isto foi sentido até pelo próprio elenco, sendo que Ian McKellen (Gandalf) ficou em lágrimas quando foi confrontado com o seu novo colega: o pano verde de efeitos especiais.

Substituir pessoas por CGI continua a não ser o melhor método de trazer realismo para um universo fantasioso como The Hobbit. Outra questão que também não ajudou foi precisamente a criação de linhas de histórias secundárias (não canónicas) cujo objetivo era ocupar tempo de cena, aumentando a duração dos filmes, e abrir caminho para o início de The Lord of the Rings. Em The Hobbit não só há um desleixo a nível técnico, como também se nota que Jackson esteve contrariado enquanto realizava os filmes. Perdeu-se a mística e ficou um travo amargo para todos aqueles que cresceram a ver os filmes originais.

Mas o que me levou a escrever este artigo foi precisamente o meu desgosto com Ready Player One. Para os que não estão familiarizados com este filme podem consultar a nossa crítica aqui.

Apesar do 1º ato do filme me ter conquistado por completo, porque inicialmente parecia uma boa adaptação do universo dos videojogos, isto serviu apenas como uma ilusão perante problemas sérios de escrita e de credibilidade na ação do próprio filme. Esta ilusão foi alimentada por constantes referências ao cinema dos anos 80 e 90 e por efeitos de última geração. Enquanto que no 1º ato experienciamos um novo universo ao sermos transportados para OASIS, esta aventura cai por terra quando Spielberg decide afastar o foco do filme na temática dos videojogos e a transporta para um mundo real monótono e pouco original. Ao contrário de casos anteriores mencionados, Ready Player One sofre na pele por não se manter fiel apenas ao mundo de OASIS, preocupando-se com a criação de uma história paralela que não consegue sustentar-se a si mesma.

Não querendo ser duro com as opções tomadas pelo realizador e respetivos argumentistas, mas o objetivo primário do filme é precisamente fazer-nos sentir imersos neste tão complexo e tão excitante mundo virtual. No entanto as sequências em live-action tornam-se incomodativas a certo ponto e os clichés e o exagero de referências da cultura pop agem como um isco que nos distrai com frequência.

Para concluir, Ready Player One é um produto que caracteriza bem esta industrialização de que o cinema está a ser feito em massa e para massas sem uma consciencialização da mensagem que pretende transmitir. Neste caso em particular sentimos que Spielberg abraça o conceito de blockbuster mas não consegue encontrar um equilíbrio entre o aspeto visual e o fluxo narrativo. Sinto que Ready Player One podia ser algo original, fresco e com grande potencial para se tornar um pioneiro nas adaptações de videojogos para cinema e, no entanto, afoga-se nas suas próprias ambições. O live-action assume as rédeas do enredo e quando isto acontece o filme perde a sua força porque a sua primeira motivação é precisamente apresentar os personagens através do jogo.

O dinheiro não tem necessariamente que ser um inimigo da qualidade. A industrialização do cinema acaba por ser uma realidade, mas isso não deve comprometer nem o processo criativo, nem o tradicionalismo que torna os filmes mais realistas, nem dominar por completo a produção de cinema ou televisão.

É um tema delicado, na medida em que os gostos pessoais são muitas vezes determinantes no tipo de filme que queremos ver em cinema ou série que queremos ver em televisão. Embora os exemplos acima referidos possam não agradar a alguns, há provas suficientes para culpar o money making por ser a primeira intenção de Hollywood e não a qualidade do que pretendem lançar.

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