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I Kill Giants: O confronto entre a imaginação e a realidade

I Kill Giants

I Kill Giants é um filme baseado numa banda-desenhada, do mesmo nome, escrita por Joe Kelly e Ken Niimura.

Barbara Thorson (interpretada pela magnífica Madison Wolfe) é uma menina pouco sociável e refugia-se num universo fantasioso para encontrar aqueles elementos que lhe faltam na sua vida problemática. Ela é uma caçadora de gigantes, seres místicos cujo objetivo é destruir o mundo, matando quem quer que seja que se intrometa no seu caminho. Barbara crê que está destinada a proteger os que a rodeiam e alheia-se da vivência comum duma rapariga normal da sua idade. A vida familiar da protagonista não é estável; vive numa casinha modesta à beira-mar com os seu irmão que passa o dia a jogar videojogos e com a sua irmã mais velha que tenta, a todo o custo, estabilizar a sua carreira para garantir que os seus irmãos mais novos tenham comida em cima da mesa. Estas características parecem empurrar Barbara ainda mais para este mundo fantasioso que acredita ser real.

I Kill Giants

I Kill Giants poderia ser um daqueles blockbusters extremamente fúteis, repleto de efeitos visuais e com monstros a combater em todas as frentes, realizado por Michael Bay, inclusive; poderia apostar em sequências de ação maçudas e embrulhar-nos num universo fantasioso que transcende as leis da compreensão humana. No entanto, o filme é exatamente o oposto disto. I Kill Giants “afoga-nos” dentro de um micro-universo onde o confronto entre a imaginação e a realidade é a maior e mais violenta sequência de ação de todas.

A imaginação e a realidade são dois termos que se opõem naturalmente. E, de facto, I Kill Giants despertou uma necessidade de expressão que já não sentia há imenso tempo. A vida não é perfeita, aliás, ela é mesmo assim, um conjunto de felicidades e tristezas que se aglomeram e nos forçam a enfrentar os nossos maiores medos. Todos temos mecanismos de defesa para enfrentar os problemas que vão surgindo; obstáculos que obrigatoriamente necessitam de ser ultrapassados para alcançarmos um estado de felicidade pleno. Somos vítimas da nossa própria rotina. Rotina esta que por vezes nos força a encontrar conforto num mundo imaginário onde, de alguma forma, conseguimos abstrair-nos de tudo o que nos causa transtorno.

I Kill Giants

I Kill Giants reforça a ideia de que não é incorreto termos receio das pessoas e aumentarmos as nossas defesas em relação a elas. São as nossas relações quotidianas que determinam o nosso estado de espírito e que influenciam a nossa maneira de ser, bem como se tornam um veículo para melhor compreendermos o mundo que nos rodeia. Nem todas as pessoas com quem convivemos têm boas intenções para connosco. Barbara é, por vezes, inconveniente nas suas palavras, tem uma língua afiada que a protege de quem se tenta aproximar e conhecê-la. As relações com a sua psicóloga e com a sua amiga Sophie revelam precisamente as fragilidades de uma jovem que se considera “diferente” e da sua integração na sociedade. Nem todos nos sentimos aptos para viver em comunidade; todos temos receios evidentes de que, por nos considerarmos diferentes (seja por que motivo for), que a sociedade que nos rodeia nunca nos irá compreender verdadeiramente. Barbara é o reflexo de alguém que sempre se sentiu marginalizado por se vestir de forma peculiar, de partilhar crenças que fogem ao que o resto do seu meio considera natural, de não querer ser reconfortada pelos problemas que claramente fazem parte do seu dia-a-dia.

A mente de Barbara possui demasiadas questões e problemas que não são típicos de uma jovem da sua idade e é isso o que a torna tão única e extraordinária.

Barbara é vítima de uma sociedade que vive conforme um padrão. Padrão este que, se não for seguido à regra, é imediatamente considerada um motivo de exclusão, discriminação e até mesmo violência. A realidade do meio em que vivemos nem sempre é fácil de confrontar. Mas será a imaginação o escape perfeito para nos abstrairmos?

I Kill Giants

A imaginação é promotora da criatividade, mas é uma área perigosa. Ser imaginativo é importante, mas pode absorver-nos de tal forma que nos torna incapaz de tentarmos superar precisamente as questões mais difíceis da realidade. Procurar abrigo não significa que os males que nos assombram se dissipem. E a mensagem de I Kill Giants é tão gratificante quanto maravilhosa a transpor este caso em particular.

Ao ser corajosa no seu mundo fantástico, Barbara consegue arranjar igualmente coragem e valentia para enfrentar os problemas mais dolorosos da sua vida. O equilíbrio com que o filme nos força a discernir os nossos atos e as consequências do mesmo é magnífico e surpreendente. A linha ténue que outrora a tornava amarga perante situações tão triviais do quotidiano e das relações que mantinha com as pessoas que ocupavam espaço na sua vida, foi-se gradualmente desvanecendo. E o resultado desta coragem humana e da esperança de que todos os obstáculos da vida são ultrapassáveis fez com que Barbara amadurece e encarasse a dura realidade da qual não se podia mais refugiar.

I Kill Giants é uma ode à natureza humana. Uma pequena pérola de cinema que nos leva pela vida de uma jovem que podia (e pode) representar qualquer um de nós. Mas pessoas como Barbara não precisam de se sentir sozinhas; pessoas como Barbara não precisam de ter o “peso do universo” em cima dos seus ombros porque, no final, existe sempre alguém com quem o podemos partilhar. Alguém que, ao contrário da maioria, não nos julga pelo que somos ou pelo que acreditamos. Alguém que não se preocupa se o resto da sociedade “rema a favor da maré”; alguém que, de facto, é genuíno e nos quer conhecer e que não se preocupa com os defeitos mais óbvios que compõem a nossa personalidade.

I Kill Giants

São estas pessoas que nos trazem de volta à realidade e que se elevam como uma bandeira branca em gesto de rendição à imaginação. Porquê? Porque elas são o exemplo real de que não há mal nenhum em deixar-nos levar um pouco pela imaginação quando temos uma boa companhia com quem o podemos partilhar. A realidade é mesmo esta: quando nos sentimos sozinhos e incompreendidos devemos lembrar-nos sempre que a vida é “uma caixinha de surpresas” e que, mais cedo ou mais tarde, surgirá alguém que rompe com todos estes medos e receios e com quem podemos ser genuínos e que esse alguém está lá para nos trazer de volta à realidade de que somos especiais e importantes.

Podemos imaginar como será o dia de amanhã, podemos sonhar com o que nos queremos tornar no futuro, mas nunca devemos ter receio de enfrentar a dura realidade que pode surgir entretanto. É inevitável e algo que não podemos controlar, mas ter alguém ao nosso lado com quem possamos partilhar isso e, inclusive, nos ajude a superar esses obstáculos, a vida torna-se mais bonita e feliz.

Leiam a nossa crítica ao filme aqui.

I Kill Giants

“There are times when you have to ask yourself, “Do I want to live my life as a coward or a warrior?”

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