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1986 – 1×13 – O Dia de Todos os Perigos

o dia de todos os perigos

“O Dia de Todos os Perigos” é o último episódio da série 1986, criada por Nuno Markl e trazida aos ecrãs da RTP pela HOP Filmes e pelo realizador Henrique Oliveira.

Acompanhamos o dia e o divulgar dos resultados de um dos mais concorridos momentos eleitorais da nossa história democrática: Soares contra Freitas. O país dividiu-se na escolha. Na série, mais do que uma divisão política, há corações e famílias que estão divididos.

O final destes 13 episódios é tempo de juntar as peças do puzzle e, para nós aqui no CineAddiction, de balanço final.

Sobre 1986 – 1×13 – O Dia de Todos os Perigos

!Spoilers (Faça scroll até à conclusão)!

O futuro do país vai ser finalmente decidido. Mas neste episódio decidem-se outros futuros. Nomeadamente futuros familiares e amorosos.

Os adultos estão prestes a cruzar-se nas assembleias de voto. Os adolescentes acompanham os respectivos progenitores, mas não podem participar no acto eleitora. Contrariamente ao que seria espectável no dia mais importante da democracia, todos estão mais preocupados com o seu próprio futuro. Amores, desamores, desavenças políticas e mal entendidos.

Assembleia de voto

Na assembleia de voto, tudo normal. Eduardo (Adriano Carvalho) vota “Bochechas”, mas só porque o camarada Cunhal pediu. Fernando (Gustavo Vargas) vota Freitas do Amaral. Maria de Lurdes (Mafalda Santos) vota Soares, em acto de rebeldia e cisão com o marido, algo que mais adiante assume contornos mais firmes.

O momento mais interessante e cómico das cenas rodadas nas assembleias de voto é quando Eduardo vai colocar o voto na urna. Na mesa de voto está Alice (Teresa Tavares). A interacção entre ambos é hilariante. “Posso colocar o meu voto na sua urna?” é apenas um dos vários trocadilhos que Eduardo faz.

Patrícia e Sérgio

Patrícia (Eva Fisahn) está a ajudar Sérgio (Miguel Partidário) a preparar-se para o seu grande encontro com a loira fã de Iron Maiden. Pelo meio, Marta (Laura Dutra) aparece, percebe que Patrícia está apaixonada pelo Sérgio e está disposta a ajudar. Como? Com aulas práticas. Ensina-a a beijar. Método demonstrativo. Sérgio fica embasbacado quando apanha as duas aos beijos. Fica ainda mais no escuro quanto às intenções verdadeiras da Patrícia.

A família modelo separa-se

Depois do voto, Maria de Lurdes faz as malas. Vai deixar a casa da família. Ela espera que assim, Fernando caia na real e mude finalmente. A despedida é um momento pesado e difícil para todos, em particular para a Marta.

Rádio Boa Onda, em maré de azar

Na Rádio Boa Onda, Tó (Tiago Garrinhas) deixa-se levar pelo entusiasmo e apela ao voto em Soares. Para os mais distraídos da vida democrática e política, convém dizer que isto é ilegal em dia de eleições. Infelizmente, alguém fez queixa e a polícia aparece no “estúdio”. e Tiago (Miguel Moura e Silva) vão passar o resto do dia na esquadra.

Felizmente, Marta estava do outro lado. Então surge o mais improvável dos heróis para forjar a mais improvável das alianças. Fernando, passa em casa de Eduardo, para irem juntos safar os rapazes da alhada em que se meteram. Acabam juntos, no café, a ver os resultados das eleições, enquanto os filhos ficam em casa a dar ao final da série aquilo que ela merece.

Enquanto isto, Sérgio conhece a sua loira. Para surpresa dele (e só dele, nesta fase) não é loira. É a Patrícia. A magia acontece.

Os fins esperados

Tiago e Marta são, finalmente, algo de concreto. O beijo acontece ao som de música apropriadíssima ao momento.

No fim de contas temos três novos casais confirmados na série: Patrícia e Sérgio, Marta e Tiago e ainda Alice e Eduardo. Por outro lado, Fernando e Maria de Lurdes estão separados, por agora e para o bem do próprio Fernando.

Tudo está bem quando acaba bem.

!Fim de Spoilers!

Conclusão sobre 1986 – 1×13 – O Dia de Todos os Perigos

Em conclusão, este episódio é um bom desenlace para a série 1986. Só não é perfeito, porque é um final a muitos níveis previsível. Mas isto não é necessariamente negativo. O que quero dizer com isto, é que apesar de já calcularmos que era aqui que vínhamos ter, a forma como a narrativa foi construída fez com que nos apaixonássemos pela forma como cá chegamos.

Posto isto tenho que dizer que as histórias que nos são aqui contadas, quer a trama principal, quer todas as outras, são deliciosas. Mais do que isso, são relevantes para a globalidade da série. A pior coisa que podemos ter são storylines que vão dar a nenhures. Em 1986, cada personagem cumpriu o seu papel de forma exímia e teve um impacto no desenrolar da trama. Mesmo as personagens secundárias como a Avó Conceição (Ana Bola), o ou o Professor Zé (Simon Frankel) tiveram um papel activo na série, seja na trama, ou na representação de estereótipos e de situações ou comportamentos que são importantes nestes retratos de época.

Representação e personagens

Em termos de representação, devo dizer que estava cético quanto a algumas escolhas de elenco. Mas a verdade é que funcionou bem. O actor principal, Miguel Moura e Silva, incorpora bem os trejeitos necessários para o tipo de personagem que representa. Aqui e ali nota-se que tem um caminho a percorrer no que toca a diálogo, mas estamos a falar de um jovem de 15 anos que tem uma carreira ainda curta e que vai longe, certamente.

Quem mais me surpreendeu foi a Eva Fisahn. É uma modelo, sem experiência de representação de relevo, que salta para o ecrã para fazer uma personagem com quase metade da idade e que nem fisicamente era parecida com ela. Excelente trabalho.

Todas as personagens foram bem construídas e sabemos de todas o backstory suficiente para a narrativa.

Execução técnica

Em termos técnicos, a série não deslumbra, mas funciona. É filmada pelos livros, sem deslumbres criativos, mas sem falhar em momento algum, o que é importante. Um bom trabalho de Henrique Oliveira.

Os adereços, super importantes numa série destas, estiveram todos lá. Os carros (em particular um MGB por quem me apaixonei e que estava sempre na rua do Tiago), as roupas, os discos e até os brinquedos, são uma viagem nostálgica sem precendentes e que deve ter dado um trabalho titânico à produção. Nesta fase, há apenas registo de uma T-Shirt dos Iron Maiden usada pelo Sérgio e que era de um álbum que só saiu em 1993. Errar é humano.

Notas finais

Para rematar, seria estapafúrdio da minha parte dizer que me senti transportado a 1986, porque nessa altura só tinha 1 ano. A única coisa que me recordo dos anos 80 foi do Porto Campeão Europeu em Viena 87. E só me lembro disso porque o meu pai gritou o golo do Juary de tal forma que me assustei e chorei 3 horas seguidas. Mas a verdade é que me foram reavivadas memórias da infância que vivi no início dos anos 90 e mais tarde da minha adolescência, em que as minhas vivências não fugiam muito das do Tiago em determinados aspectos. O bom desta série foi exactamente isso: as personagens. Todas elas eram tão credíveis que nos podíamos identificar com elas ou até identificá-las com alguém que conhecíamos ou conhecemos. Na verdade, os problemas e vivências daqueles personagens há 30 anos atrás não são diferentes das que se viveram há 20, 10 ou 5. O contexto é que é diferente. E até esse contexto, o de 1986, foi bem retratado.

Num directo no Facebook, Nuno Markl assumiu que há toda uma ideia para uma segunda temporada. No entanto, nada está previsto fruto da RTP estar em período de transição na administração e esta estar impedida de tomar decisões deste tipo.

Vamos ter de esperar para ver.

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