A 7ª Camada da Arte Rubricas

Peaky Blinders: O meu problema com Thomas Shelby!

ESTE ARTIGO CONTÉM SPOILERS!!!

Thomas Shelby é uma figura icónica da série Peaky Blinders, mas no entanto é também um dos favoritos dos fãs por ser um protagonista que, à primeira partida, transmite segurança, parece ter boas capacidades de liderança e ser um bom chefe de família. Mas eu tenho um problema com Thomas Shelby. Esse problema é que o personagem interpretado por Cillian Murphy não consegue fugir ao seu próprio registo.

Isto é, o personagem acaba por não conseguir ganhar uma nova dimensão, caindo num ciclo vicioso que se torna incomodativo. As características que mais definem Thomas Shelby são:

  1. A sua capacidade de estratégia;
  2. A falta de confiança em qualquer outra personagem que interaja com ele;
  3. A desconsideração que dá ao próprios membros da família (especificamente Arthur Shelby);
  4. A ganância e avareza com que lida com os seus negócios;
  5. Procura encontrar conforto em várias mulheres para compensar o vazio deixado por Grace, um dos seus maiores amores.

Focando no primeiro ponto, Thomas é um personagem que, através do seu posto como líder de um gangue, está obrigatoriamente ligado a situações em que precisa de desenvolver uma estratégia – ou várias – para escapar ou solucionar determinados problemas. Estas estratégias poderiam resultar numa primeira temporada em que o espectador está a entrar no seu mundo e a conhecer a sua personalidade. No entanto, o personagem acaba por nunca mudar a sua conduta ao longo das restantes temporadas. Thomas recorre com frequência à manipulação de outros ao seu redor para alcançar os seus fins. Se tivermos em conta que uma série necessita de um protagonista que se “dispa” perante o público, Thomas desilude e acaba por nos enganar regularmente. Um caso prático desta sua faceta pode ser visto quando todos os Shelbys e Lees se encontram no funeral de John. Nesta cena em particular, Thomas utiliza o funeral de um membro da sua família para armar uma cilada e enviar uma mensagem a Lucas Changretta, seu rival italiano. A rivalidade de ambos surgiu porque John e Arthur haviam assassinado o pai de Luca. O que se torna evidente nesta sequência é que Thomas não olha a meios para atingir os seus fins. Utilizar a sua família como isco prova que Thomas não possui qualquer escrúpulo, sendo que o valor que lhe atribui não é maior do que o valor do sucesso em concretizar os seus objetivos. Quase que Thomas trata a sua própria família como um objeto de troca ou material descartável. Concluindo o primeiro ponto, Thomas acaba por não mudar o seu comportamento ao longo das temporadas, estagnando sempre no mesmo registo. O exemplo mencionado em cima pertence à quarta temporada da série, o que acaba por revelar que em quatro temporadas o personagem não mudou em nada.

O segundo ponto está inteiramente ligado ao anterior. Por norma, um líder e um homem de negócios pertence a um universo que está sempre em constante reboliço. A confiança neste mundo é essencial para sobreviver. Porventura, Thomas acaba por não confiar em ninguém. Seja em casos de trabalho ou mesmo familiares, o personagem não consegue apoiar-se ou pedir ajuda a outros para lidar com os seus próprios problemas. Recorre uma vez mais à manipulação para fazer com que os outros cedam à sua vontade e cumpram uma missão da qual apenas Thomas tem conhecimento. Thomas vai encontrando alguns aliados ao longo das temporadas, mas estes aliados, tal como ele, regem-se por interesses. “O que tu me dás a mim, eu também te dou a ti”. Esta expressão ilustra claramente que, no mundo da máfia, tudo tem um valor material. Se eu tirar uma fatia, o outro tira o resto do bolo por vingança. Num mundo em que tudo gira em torno de trocas e favores, de tiros e facadas, a confiança, também ela, tem preço. Alfie Solomons, protagonizado pelo grande Tom Hardy, é aquele que mais se destaca. Thomas e Alfie necessitam um do outro da mesma maneira que se traem um ao outro. Apesar de ser um dos seus maiores aliados, a falta de confiança em Alfie é evidente, chegando ao extremo de Thomas estar disposto a apunhalar o mesmo pelas costas.

Para além de todos os que partilham os negócios com Thomas, não há maior influência na sua vida do que a sua família. Os Shelbys são numerosos e, eles próprios pertencem à rede dos Peaky Blinders para que estes continuem a enriquecer com negócios ilícitos. “Fugir” à polícia é já algo que a família está habituada, e que em nada incomoda o líder que determina as suas ações. Apesar de Arthur Shelby ser o irmão mais velho, a família ainda é composta por Thomas, John, Finn e Ada. Para além dos irmãos Shelby, temos também Polly, tia direta dos protagonistas, que liderou o grupo de gangsters enquanto os seus sobrinhos estiveram a prestar serviço militar em França. Mais tarde, com o decorrer da ação, Polly descobre que tem um filho do qual desconhecia o paradeiro; este rapaz tem o nome de Michael Gray e é interpretado por Finn Cole, também ator de Animal Kingdom.

Poderíamos pensar que a família é já um tema recorrente dos filmes/séries de máfia, basta visualizar a série de grande sucesso Sons of Anarchy e Animal Kingdom, referida anteriormente. Em Peaky Blinders Polly é uma forte líder feminina, em Sons of Anarchy Gemma Teller Morrow é a matriarca de SAMCRO e em Animal Kingdom Janine ‘Smurf’ Cody é quem dita as regras. Portanto é já característico de nas séries desta temática haver uma mulher que partilhe quase tanto poder como o protagonista.

Outra característica interessante consiste no personagem de Andrew ‘Pope’ Cody, em Animal Kingdom, ser provavelmente o reflexo de Arthur Shelby, em Peaky Blinders. Ambos possuem certos problemas psicológicos que os levam a ter comportamentos erráticos, ao mesmo tempo que sentem redenção pelas suas más atitudes, muitas vezes estas impostas por quem os controla (no caso de Animal Kingdom, Smurf, e no de Peaky Blinders, Thomas).

Todavia, há uma clara distinção entre os protagonistas. Enquanto que Jax Teller (Sons of Anarchy) é capaz de abdicar do seu negócio ilegal para salvar um membro da família, já Thomas os manipula sem se preocupar com o seu bem-estar. No final da terceira temporada, Thomas, em segredo, “vendeu” a sua família à polícia simplesmente para assegurar que o seu plano era bem sucedido. Em suma, podemos ver que Thomas é capaz de camuflar a sua humanidade e comprometer a sua família (quando o seu papel deveria ser protegê-la contra tudo e todos), para alcançar o seu sucesso pessoal.

Tudo na vida de Thomas Shelby gira em torno de dinheiro e poder. Este é o princípio do quarto ponto. Não podemos falar de dinheiro e poder sem pensarmos em ganância e ambição. Reforçando que na máfia estes aspetos são o que dita o seu sucesso e a sua sobrevivência, Thomas Shelby não é excepção. No início da série, Thomas não possuía o estatuto que desejava, tentando apoderar-se do negócio de Billy Kimber para alcançar o que pretendia. Claramente que isto não parou por aqui. Ser ambicioso poderia ser um desafio para Thomas, no entanto a sua capacidade de estratégia acaba por se tornar útil nesta situação. Futuramente a aliança com Alfie trouxe benefícios monetários para Thomas; ao passo que criou vários negócios legais que, por conseguinte, permitiu-lhe lavar todo o dinheiro que obteu iligalmente. Apesar de todo este enriquecimento financeiro, seja ele obtido legal ou ilegalmente, a sede de Thomas ainda não está completamente saciada, pelo que este, no final da temporada mais recente, concorre à presidência de Birmingham como objetivo final. Tendo sido a série renovada, o que mais em Peaky Blinders poderá Thomas ambicionar? Conseguirá ele maior poder do que o que já possui? Só o saberemos na próxima temporada, mas esta ganância e sede incontrolável de poder torna o personagem de Cillian Murphy astuto e, no entanto, perigoso.

Para concluir, o último ponto deste artigo foca-se na presença feminina na vida amorosa de Thomas Shelby. O protagonista de Peaky Blinders teve o seu maior amor em Grace Burgess, encarnada por Annabelle Wallis. Embora Thomas possua uma personalidade em que não se deixa manipular, pudemos conhecer o seu calcanhar de Aquiles. O amor por Grace muitas vezes influenciou os seus comportamentos, fazendo-o baixar as suas defesas em relação ao seu império. Como consequência disto vimos pela primeira vez Thomas numa situação vulnerável, mas isto não é suficiente para fazer de Thomas Shelby um personagem com diversas camadas. Apesar de Grace ser um motivo para Thomas baixar a guarda, isto nunca atinge o seu esplendor. Thomas vê-se envolvido com diversas mulheres ao longo das temporadas, tentando preencher o vazio deixado por Grace. O facto disto acontecer com frequência faz com que o personagem se torne cansativo, repetitivo e cliché. Em Peaky Blinders há uma clara lacuna na representação feminina amorosa do protagonista e, para além disso, pode-se constatar que o personagem de Thomas, apesar de aparentar ser um personagem com diversas dimensões, rapidamente se torna vítima das suas próprias ambições.

Thomas Shelby é provavelmente um dos personagens mais sobrevalorizados na televisão nos dias que correm porque, embora este texto o descreva na sua íntegra, não é mais do que um resumo de um personagem que se mantém igual temporada após temporada. Todos os esquemas, todas as mulheres que pertencem à sua vida e a forma como lida com a sua família nunca sofre alterações. A série vai floreando as temáticas, tentando dar um carisma diferente para que o espectador se consiga manter envolvido com a história, mas de que vale o floreado se o próprio protagonista nunca muda a sua conduta?

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