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As muitas metáforas de Parasyte: The Maxim!

Parasyte

ESTE ARTIGO CONTÉM SPOILERS!!!

O anime Parasyte: The Maxim, com o título original de Kiseijû: Sei no kakuritsu, chamou-me a atenção pela sua história fascinante de como encara a vida na Terra e de como metaforiza uma fase complicada como a adolescência humana.

A história envolve Shinichi Izumi, um jovem de 17 anos, que é “possuído” por um parasita alienígena que fica albergado na sua mão direita. Para distingui-lo de si mesmo, Shinichi atribui-lhe o nome de Migi (direita em japonês). Mas o que é Migi? Migi é um ser inteligente e que faz os possíveis para se adaptar ao corpo do jovem, ainda que não consiga nutrir sentimentos por algo ou alguém. A sua espécie invadiu a Terra encontrando nos seres humanos um refúgio para garantir a sua sobrevivência. Enquanto Migi se aloja na mão direita de Shinichi, o objetivo de qualquer parasita embrionário é alcançar o cérebro. Ao alojar-se nele, conseguem controlar a 100% o seu hospedeiro. No entanto, nem todos os parasitas são bem-intencionados, aliás, eles comportam-se como carnívoros, devorando os seres humanos que estão alheios à sua existência. Migi tem a capacidade de os detetar a uma distância de 300 metros e Shinichi precisa de se adequar a este novo aspeto da sua vida, tornando-se numa espécie de “justiceiro” ao aniquilar os parasitas que visam o extermínio da raça humana.

Parasyte

A premissa de Parasyte: The Maxim pode parecer, a uma primeira partida, algo saído de um filme de ficção científica rasco, lançado diretamente para DVD e que ninguém tem interesse em ver. No entanto, a série é muito mais complexa e interessante do que aparenta. Não só a ação e os desenvolvimentos são absolutamente vertiginosos, como as personagens e os twists abundam a todas as esquinas. Mas as metáforas que acompanham esta criação animada do Japão são muito mais densas do que possam imaginar.

A adolescência é uma época de descoberta, de receios, de conhecimento e onde o nosso cérebro está programado para disparar por todos os lados. Shinichi é um rapaz que vive uma rotina normal, escola casa, casa escola, com uma relação familiar estável mas que não deixa de ser um adolescente como todos os outros. A simbologia de Migi e de toda a temática adolescente explicita precisamente como esta fase complexa da nossa vida é essencial para definir o rumo que queremos para ela enquanto adultos. Migi é uma personificação do crescimento e da maturação, dos percalços inerentes à transição de uma personalidade em construção, para uma que é forte e que nos define enquanto indivíduos. Ao longo dos episódios vamos vendo estas alterações em Shinichi e nas relações que este trava com inúmeras personagens que vão surgindo. Até o fator romance é importante nesta etapa e é algo que vai gradualmente fazendo a distinção entre a parte humana e a parte parasita que é desprovida de emoções.

Parasyte

Esta ambiguidade em torno da incompreensão dos sentimentos e das emoções é também típico dos adolescentes, especialmente quando as hormonas estão ao rubro e, por vezes, não são claras na própria mente.

Outra metáfora interessante é a atribuição dos parasitas ao longo da série. A maioria dos parasitas, digamos “principais” da ação, manifestam-se em situações sociais particularmente divertidas. Tamura Reiko é uma professora de Matemática e a sua personagem é complexa e cativante o suficiente para nos manter envoltos na sua história, criando o paralelismo de que a edução é um fator importante no desenvolvimento psicológico ou instintivo de todas as formas de vida. Tal como um cão aprende truques ou como o chimpanzé manifesta a sua inteligência em jogos de raciocínio, também os parasitas (pelo menos os mais fortes) sentem a necessidade de entender o ser humano. Não só por viverem dentro dos seus corpos, mas para entender o que os motiva a ser uma raça considerada “superior” e “racionalmente evoluída”.

Parasyte: The Maxim também coloca parasitas na política e, é aqui, que realmente o anime tira maior proveito da sua mensagem social. A política é um ramo denso, e quer se goste ou não, nunca agrada à maioria da sociedade. O que melhor para controlar massas do que um parasita no governo? A questão é que estas brincadeiras sociais acabam por satirizar a sociedade de forma interessante. O que é a política senão uma parasitação social? Temos alguém que está “acima” de nós e a ditar o destino das nossas vidas. Alguém que, mesmo não estando diretamente em contacto connosco no nosso dia-a-dia, é responsável pelo conjunto de regras que, como sociedade, somos forçados a seguir. No conceito mais prático na história do anime, infiltrar-se na política assegura uma fonte de alimento infinita para os parasitas. Alimentarem-se nas sombras dos seres humanos que tentam “respeitar a lei” que lhes é impingida. Um truque inteligente, de facto.

Parasyte

Parasyte: The Maxim é, portanto, um conjunto de animações simples e de sequências de ação vertiginosas, mas que alia ao fator entretenimento uma mensagem social poderosa. Para todos os amantes do género, ainda que possam estranhar inicialmente, Parasyte é mesmo um anime a não perder.

É intenso, violento e muito inteligente, sem nunca perder a essência de que vivemos num mundo onde nós próprios nos tornamos parasitas e destruímos a única casa que conhecemos: o nosso planeta. Ecologia e sociedade estão interligadas. Uma sem a outra cria um desequilíbrio que poderá ser a sentença de todas as espécies que habitam a Terra e nós não somos exceção.

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