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La Casa de Papel: Um fenómeno popular ou um produto de qualidade?

La Casa de Papel

ESTE ARTIGO CONTÉM SPOILERS!!!

La Casa de Papel estreou em Maio de 2017 em Espanha e tornou-se um fenómeno mundial graças à Netflix. Será que tem mérito? Será que é apenas mais uma tendência da moda? É ela um produto original ou uma mera cópia ou junção de outros materiais? Vamos procurar responder a estas questões e perceber o que torna esta série de nuestros hermanos um acontecimento popular e que acabou nas bocas do mundo.

Sinopse:

La Casa de Papel conta a história de um grupo de oito assaltantes que se infiltra na Casa da Moeda em Madrid, preparando um dos maiores golpes de que há memória. O grupo é liderado pelo enigmático El Profesor (Álvaro Morte) que parece ter planeado tudo minuciosamente para conseguir milhões de euros sem ter, literalmente, que roubar a ninguém e atua fora do local, encaminhando os infiltrados no decorrer do assalto. A história é narrada por Tóquio (a alcunha que é atribuída à protagonista) e, à medida que vamos conhecendo a história que une todos os intervenientes, somos também arrastados para as vidas dos que são feitos reféns, aprisionados dentro das instalações. A inspetora Raquel Murillo (Itziar Ituño) é tenaz e persistente e ficou encarregue de resolver o crime e zelar pela segurança dos reféns. Como consequência do tempo passado dentro da Casa da Moeda, os assaltantes e os reféns começam a desenvolver determinadas ligações e, por vezes, os planos não são executados na perfeição como estavam designados originalmente.

La Casa de Papel

Na verdade, La Casa de Papel não é propriamente uma novidade. Tanto que há semelhanças com o filme Inside Man, de Spike Lee, que abrange o mesmo núcleo de narrativa, bem como há traços de Heat, de Michael Mann, no ritmo acelerado que causa aquela réstia de adrenalina enquanto vemos os episódios. Ter semelhanças com outros produtos de cinema ou televisão não significa que a série não encontre a sua própria originalidade e ela trabalha com astúcia os elementos certos para nos prender do início ao fim. Apesar das suas influências há algo que confere a La Casa de Papel um toque distinto de tudo o que já nos foi apresentado em televisão.

Confesso que as séries de crime policiais não fazem parte de um dos meus géneros favoritos da indústria, e isto deve-se ao facto de caírem regularmente no registo procedural chato e repetitivo. Inserindo-se num meio já banal e abundante no panorama televisivo, assim que o fenómeno começou a criar “burburinho” nas redes sociais fiquei relutante em recebe-lo. A desilusão de Prison Break é ainda uma dor de cabeça muito recente (e parece que irá continuar) porque a popularidade da série enevoou a sua própria qualidade. Há, sem dúvida, uma presença de Prison Break no enredo de La Casa de Papel, mas esta presença é aproveitada e reestruturada de forma competente e ainda mais intrigante na série espanhola.

La Casa de Papel

Existem muitas características que definem La Casa de Papel como um fenómeno popular, estejam elas ligadas à sua temática ou às semelhanças com outras séries televisivas, mas o que define La Casa de Papel como produto de qualidade é outra questão. As personagens são um dos focos mais atrativos. Há três grupos distintos que vamos seguindo ao longo da série: o grupo de assaltantes (marginais com cadastro e um líder inteligente, astuto e sempre prevenido), os reféns (que vão variando entre o sensato, o impulsivo e o “armado em herói”) e a polícia (em especial a inspetora Raquel Murillo e o seu colega e outrora amante Ángel). Portanto, existe um grupo vasto de personagens com que o público se consegue facilmente identificar e, quem sabe, encontrar algumas semelhanças de personalidade com as mesmas. São elas e as suas relações que trazem toda a ação de La Casa de Papel. É nelas que nos apoiamos e é nelas que a série enriquece o seu enredo aparentemente banal.

Disfarçando as suas identidades com nomes de cidades, a equipa de assaltantes logo se torna o “cavalo de corrida” preferido dos espectadores. É através destes sonhadores, que viveram vidas complicadas e na maneira como vão gradualmente mostrando a sua “humanidade” dentro de um meio em que seriam condenados moralmente, que nos vamos afeiçoando a eles. Há também El Profesor, interpretado pelo exímio Álvaro Morte, que nos deslumbra pelos seus ditos eruditos, pela sua calma aconchegante e pela sua confiança e astúcia capazes de desafiar as nossas próprias mentes. Há, portanto, um jogo de contrastes entre heróis e vilões, e que, embora não seja novidade nenhuma, não deixa de aproximar o público e absorvê-lo na sua história.

La Casa de Papel

La Casa de Papel brinca também com o poder do capitalismo, descredibilizando-o em diversos momentos e aproveita-se disso para transmitir uma mensagem importante. Será a vida mais importante que o dinheiro? Atribuímos um conceito valorativo a algo tão insignificante como o papel no nosso quotidiano. Sem ele não vivemos nem sobrevivemos. Por causa dele viciamo-nos, criamos problemas e tão vulgarmente nos matamos uns aos outros. O humano vê o dinheiro como uma religião e presta-lhe vassalagem sem opção de escolha. Ele existe para nos controlar a vida, ele existe para percebermos que as nossas potencialidades e possibilidades são limitadas. Inclusive, ele controla uma grande percentagem da nossa felicidade, e influencia o crescimento e desenvolvimento da nossa racionalidade. Ele é aquele companheiro que está ao nosso lado (ainda que nem sempre visível) desde que nascemos até ao momento da nossa morte. Somos escravos de um objeto de papel. Um material que é tão frágil e tão abundante mas ao qual entregamos a nossa vida. Rasgar-se uma página de um caderno não é diferente de rasgar uma nota de 10, 20 ou 50€, mas as reações que provocam no nosso psicológico são opostas. Em La Casa de Papel, esta dicotomia vai sendo explorada de forma divertida, jogando sempre com a importância de que a vida pode ser comprada, negociada ou vendida.

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Os cliffhangers constantes são também eles motivadores da criação de uma série policial ritmada, que nos deixa perplexos com este jogo de gato e rato entre os criminosos e as forças da autoridade. A nível artístico, esta estratégia não é criativa, mas resulta muito bem no conceito. Mas mesmo com todas estas proezas, há algo que, para mim, torna La Casa de Papel um produto televisivo memorável.

Somos uma sociedade que é absorvida pelo cinema e televisão norte-americanos. E, embora esteja mergulhada em americanismos, La Casa de Papel tem um encanto e carisma europeus. Ouvirmos e conhecermos uma história numa língua não-inglesa acaba por ser um dos elementos mais fascinantes da série. Repetimos com frequência (e em voz alta) inúmeras falas das personagens, seja em tom sério ou satírico, dizemos que o Arturito é um “gilipollas” ou um “cancer”, e adoptamos por breves momentos o companheirismo com o nosso país vizinho. Celebramos a sua criatividade, a sua destreza em criar um produto que – mais uma vez repito – não é totalmente original, mas que se destaca precisamente por aproveitar essas falhas de originalidade e incutir-lhes um carisma próprio e com um charme particular que leva o espectador a estar em constante envolvimento com a narrativa. Importante também, visto que a nossa rivalidade com o país vizinho é, também ela, um elemento que existe, é que a série ainda mete um bocadinho do orgulho português num dos seus episódios. Canta-se o fado de Piedade Fernandes e o coração enche-se de um carinho especial, tal como A Canção do Mar de Dulce Pontes o fez no filme norte-americano Primal Fear.

La Casa de Papel

Portanto, quer se considere La Casa de Papel uma “moda” ou não, é certo que a série possui o seu próprio mérito. Mais importante que o mérito ou tendência da moda são as emoções que ela provoca em cada um de nós e a bagagem moral que ela nos traz com a sua mensagem.

Para mim, La Casa de Papel distingue-se pelo seu charme espanhol, pelo aproveitamento criativo que faz de algo já vulgar e comum e pelas suas personagens atrativas que vão, aos poucos, ocupando um espacinho no nosso coração ao longo dos episódios, seja pelos melhores ou piores motivos e pela sua mensagem de como somos vítimas de algo tão fútil e descartável como o dinheiro.

Leiam a nossa Mini-Review da primeira parte da temporada de La Casa de Papel aqui.

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