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Fullmetal Alchemist Brotherhood: Um anime especial e completo!

ESTE ARTIGO CONTÉM SPOILERS!!!

A indústria do anime é uma que tem as suas “garras cravadas” no público mundial. Da mesma forma que Hollywood assegura o crescimento do cinema norte-americano, do encanto com que a Europa define as suas produções cinematográficas e televisivas, de como Bollywood mostra o exotismo indiano, também o Japão construiu um império em torno do desenho. Baseado no mangá de Hiromu ArakawaFullmetal Alchemist Brotherhood é um acontecimento único e precioso.

Recentemente voltei a rever os episódios deste clássico e à medida que avanço, parece que há sempre algo novo a ser descoberto. A história acompanha os irmãos Edward e Alphonse Elric que, após a morte da sua mãe, decidem utilizar a alquimia para a trazer novamente à vida, é uma que é tão rica quanto especial. Obviamente que a situação não decorre como o esperado e Edward acaba por perder dois dos seus membros e Alphonse vê a sua alma aprisionada numa armadura de cavaleiro. Juntos na procura por recuperarem os seus corpos, os irmãos vão enfrentar uma conspiração gigantesca na busca por respostas, ao mesmo tempo que tentam salvar o mundo duma ameaça que pode estar na origem de todos os fenómenos que estiveram na origem do seu problema.

Fullmetal Alchemist Brotherhood é uma proeza televisiva. É um triunfo de como algo animado consegue tornar-se tão grandioso e, ao mesmo tempo, tão simples e divertido. Há uma riqueza argumentativa que até agora nenhuma série televisiva em live-action conseguiu transpor para o pequeno ecrã (sim, nem mesmo Game of Thrones). O anime bebe de influências da história da humanidade, em especial da Primeira Guerra Mundial, onde temos um Führer que controla os diferentes condados de Amestris. Há, inclusive, a chacina que nos remete para o holocausto de um povo considerado “inferior” e com fortes ligações religiosas (a população de Ishval). Ao adaptar estas influências para um enredo com uma notória conotação militar, Fullmetal Alchemist Brotherhood oferece aos seus espectadores o conforto de poderem visualizar uma história fantasiosa com contornos realistas.

Mas a cultura do anime não se prende exclusivamente ao som do “metal” e das “armas” nem se afoga em demasia no conceito de guerra. Para além disto, inclui no seu vasto universo um pouco de traços chineses provenientes de Xing (uma clara referência à China) que, por sua vez, possui a sua própria forma de alquimia. E ainda podemos visitar Drachma, um país coberto de gelo e onde encontramos uma muralha. Sim, fãs de Game of Thrones, aqui também há uma Muralha. Mas não temos um Jon Snow ingénuo a liderar, temos uma mulher forte, com garra e um feitio difícil, mas já lá vamos.

O mundo de Fullmetal Alchemist Brotherhood é um que aproveita geograficamente pontos do nosso planeta real e os transforma em algo original e que nos agarra com força ao enredo.

Fullmetal Alchemist Brotherhood

Por falar em enredo, a complexidade com que Fullmetal Alchemist Brotherhood lida com o fator humano é, também ele, exclusivo e, por vezes, assustador. As diferentes condições humanas são um dos pontos mais maravilhosos de todo o anime. Há aqui uma riqueza filosófica que rodeia a atmosfera da série e que a torna não apropriada a menores. Não falamos apenas da violência física, mas sim dos conceitos mais profundos relativos à vida humana.  Esta complexidade filosófica merece ser classificada por pontos:

A Experimentação Laboratorial em Seres Humanos

Não é nenhuma novidade que sempre se criou um tabu em torno das experiências científicas em seres humanos. Nas suas aventuras, Ed e Al conhecem Shou Tucker, um Alquimista do Estado perito na criação de quimeras. Shou é um pai solteiro de uma menina adorável (de nome Nina) e a quem os heróis recorrem em busca por respostas de como recuperar os seus corpos. Apesar da sua aparência sensata e profissional, Tucker revela-se um homem execrável ao colocar os seus objetivos profissionais acima do amor que nutre pela família.

O patriarca Tucker havia falhado numa experiência anterior de tentar criar uma quimera falante mas aquilo que os heróis (e nós espectadores) não sabiam entretanto é que Tucker havia tentado transmutar a sua própria mulher, tornando-a num monstro que não conseguiu sobreviver à dita experiência. Para recuperar a sua reputação, Tucker vai ainda mais além. Num momento de absoluto terror, Ed e Al apercebem-se que Nina e o seu cão de estimação desapareceram sem deixar rasto e, no seu lugar, um ser horrendo com a capacidade de falar surge.

O episódio é tão poderoso e tão forte que arranca um dos momentos mais arrepiantes do anime. Como referido anteriormente, Fullmetal Alchemist Brotherhood não é aconselhável a menores. No entanto, a mensagem filosófica mistura-se com a ambição científica. Será a condição humana inferior ao progresso científico? Será pertinente subjugarmos seres vivos à nossa própria ambição em nos tornarmos num deus?

Moralmente, o anime vai preparando o espectador para eventos que certamente irão criar revolta e ambiguidade.

Fullmetal Alchemist Brotherhood

Bem vs. Mal, Ciência vs. Religião

Há duas linhas inteligentes de narrativa em Fullmetal Alchemist Brotherhood que desmistificam os cânones da religião na sua generalidade. Isto é, no início da série, vemos Ed e Al perseguirem um padre (aparentemente católico) que possui uma pedra filosofal e a usa para fins maliciosos. Ficamos a saber também que o povo Ishvaliano tem uma forte devoção a um Deus justo, misericordioso e omnipotente (com toques que remetem para uma forma de budismo), reforçando a ideia de que existe uma abertura na própria série animada para a diversidade cultural e religiosa. Mas, o grande confronto consiste na própria concepção de Deus na série.

Quando Ed e Al tentam trazer a sua mãe de volta à vida e sofrem as consequências de o fazer, conhecem a “Verdade”. A “Verdade” é como se fosse uma encarnação de um Deus que controla a vida física e espiritual dos habitantes deste mundo. Quem procura a “Verdade” deve lidar com o que dela advém. A presença de uma entidade divina que julga em prol do moralismo humano entra em conflito com o conceito da pedra filosofal. A “Verdade” pode ter retirado o braço e perna de Ed e o corpo físico de Al, mas a criação da pedra filosofal implica a aniquilação em massa de seres humanos para absorver o seu poder. Se tivermos na nossa mente a linearidade do Bem vs. Mal, Fullmetal Alchemist Brotherhood eleva a fasquia para outro patamar. Se pensarmos em termos leigos, a “Verdade” seria a personificação do Bem e a Pedra Filosofal o Mal respetivamente. No entanto, este pensamento linear não funciona no contexto da série, tornando-a ainda mais rica.

A “Verdade” permitiu que Ed e Al vivessem, mas retirou-lhes algo para manter a sua posição. Venerá-la ou procurá-la exige consequências. A Pedra Filosofal é procurada e venerada pelo seu poder e pelo conceito de imortalidade, que aparentemente seria uma “mais-valia” para todos o que a procuram. Contudo, a Pedra Filosofal exige sacrifícios humanos para ganhar vida, provocando reações adversas nas personagens do anime, tornando-a num Deus criado pela ciência e que, tal como a “Verdade”, possui um reverso moral. Nada é linear em Fullmetal Alchemist e, como podemos ver, a religião e a ciência combinam-se e criam novos conceitos ou exploram situações delicadas dentro da sua vastidão, forçando o espectador a entrar em conflito com as suas próprias ideologias acerca das temáticas em questão.

Será a ciência sinónimo de progresso quando envolve a vida? Poderão a ciência e a religião estar no mesmo patamar nas crenças da humanidade? Serão elas assim tão diferentes, ou serão elas meramente um pretexto de devoção do ser humano?

Fullmetal Alchemist Brotherhood

A simbologia das personagens secundárias

Fullmetal Alchemist Brotherhood é um anime completo. Completo no sentido em que nenhuma personagem é deixada ao acaso. Umas são mais desenvolvidas do que outras ao longo dos episódios, mas todas elas desempenham um papel importante.

Os homunculi, seres humanos artificiais criados a partir de pedras filosofais, são um dos aspetos mais atrativos da série. Os 7 pecados mortais da humanidade ganham carne e osso e todas as suas atitudes revelam a força de como estes pecados mortais estão enraizados na nossa espécie.

Lust (Luxúria): É personificada como uma mulher bela e atraente, com talentos maliciosos de sedução que tentam o Homem a ceder à sua vontade. O conceito de femme fatale é aplicado aqui de forma extraordinária, tornando-a num inimigo formidável.

 

Envy (Inveja): A inveja não conhece idade nem género. A inveja é, literalmente, um sentimento “muito feio” como diz a voz popular e em Fullmetal Alchemist vemos a sua verdadeira identidade monstruosa em duas versões, sem conseguirmos definir ao certo a sexualidade da personagem. Esta ambiguidade é precisamente o que torna Envy numa personagem magnífica e difícil de decifrar. A inveja assume imensas formas e é um pecado que se infiltra na nossa personalidade como uma larva que vai devorando a carne de dentro para fora.

Gluttony (Gula): Talvez o mais simples de todos. Um homem “gordo” de poucas falas e com vontade de devorar tudo à sua frente.

 

 

Greed (Ganância): Este é talvez um dos mais complexos ao lado da Inveja. Ter ganância não significa que ela esteja ligada ao materialismo e aos prazeres mais carnais. A personagem de Greed no anime é extremamente bem explorada, na medida em que vemos inicialmente o conceito mais básico da própria conotação da palavra a manifestar-se, mas vemo-lo gradualmente a crescer. A ganância está sempre lá, mas sermos gananciosos por bens materiais ou caprichos carnais não é sinónimo de sentirmos ganância por bens morais. A ganância é mutável dentro do ser humano. Aliada à ganância está a ambição, aliado à ganância está o orgulho, aliado à ganância está o próprio conceito de se ser humano. É nesta dicotomia difícil de gerir que o anime floresce e atinge um dos seus pontos mais altos, ao colocar a personagem de Greed em confronto com os seus próprios focos de ganância. Greed começou por ser ganancioso em bens físicos e materiais, mas acabou por ser ganancioso em ter companheiros e amigos com quem pudesse viver algumas aventuras.

Pride (Orgulho): Numa apreciação pessoal, o Pride é inquestionavelmente uma das minhas personagens favoritas. Não é por nada que o anime resolveu deixar o primeiro homunculus para o fim e para chocar os fãs. O orgulho aqui é representado por Selim Bradley, o filho do Führer (e outro dos pecados mortais) King Bradley, uma criança aparentemente doce e inocente. Pode ter o rosto de uma criança, mas a sua verdadeira face consiste numa monstruosa e quase ilimitada junção de sombras mortíferas. O orgulho camufla-se na inocência e na doçura. É um pecado que tentamos esconder mas que sobressai nas alturas mais complicadas das nossas vidas. E o orgulho é tão difícil de combater. Todos nós partilhamos dele, todos nós sofremos silenciosamente por ele e que, por vezes, é capaz de nos deixar nas sombras, tal como é representado no anime. É um dos adversários mais formidáveis que os irmãos Elric enfrentam e um dos maiores twists de todo o anime.

Wrath (Ira): Ira, raiva, ou qualquer outro sinónimo que lhe possamos atribuir não remove a força com que este pecado nos atinge. King Bradley é o homunculus responsável pela personificação deste sentimento tão explosivo. No entanto, Bradley é sereno, paciente, calculista e perseverante. É aquele predador que espera pacientemente na sua calma para explodir a qualquer momento para caçar e encurralar a sua presa. Como já sabemos, nada é linear no universo de Fullmetal Alchemist Brotherhood e a Ira é um daqueles pecados que menos assumimos controlo assim que ele se manifesta. Mas, para termos um surto de raiva mantemos uma postura contrastiva antes que ele surja. A ira é uma reação impulsiva do nosso comportamento e que Bradley consegue esconder com mestria.

Sloth (Preguiça): Outro dos mais simples de entender. “Lei do menor esforço” incutida num ser forte e temível, mas que trabalha lentamente para alcançar o seu objetivo. A preguiça é aquele pecado de que sofremos todos os dias. Um que embora lento, quando ataca, ataca em força. A sua presença no anime é curta e breve, mas que não deixa de mostrar precisamente que não a devemos subestimar.

As personagens femininas em Fullmetal Alchemist Brotherhood são também elas magníficas. Porquê? Porque rompem precisamente com os clichés que assombram este tipo de produtos artísticos.

Temos Winry, uma bonita, simpática e adorável jovem que não se fica apenas por um mero interesse amoroso no enredo. Winry é mecânica (uma profissão normalmente associada ao sexo oposto) e uma profissional no ramo. É ela que constrói os auto-mails que Ed utiliza em batalha e no seu dia-a-dia em substituição dos seus membros perdidos. Mas a personagem não está lá apenas como “donzela em apuros pronta a ser salva”. Winry é inteligente e destemida, sem qualquer receio de encarar o perigo nos olhos.

 

Riza Hawkeye é uma militar que ocupa um cargo elevado num meio quase exclusivamente masculino. É habilidosa, ágil com as armas e no combate. É também uma mulher impetuosa e séria, capaz de tomar decisões difíceis em momentos delicados sem nunca se precipitar.

 

 

 

Izumi Curtis é a sensei (mentora) dos nossos heróis. Tal como Ed e Al, Izumi encarou a “Verdade” e pagou um preço por isso. Normalmente, e seguindo os veículos hollywoodescos, associamos a palavra “sensei” a um homem e, muito provavelmente, a primeira imagem que nos vem à cabeça é Mr. Miyagi de The Karate Kid. Mas Izumi é formidável. É uma extraordinária guerreira, com atributos poderosos e uma das alquimistas mais destemidas de toda a Amestris.

 

Mei Chang é uma menina adorável que tem um companheiro a preto e branco, também ele adorável. A jovem criança combina perfeitamente a doçura e a ingenuidade típica da idade, mas revela -se também uma lutadora valente e repleta de talentos atípicos de uma menina da sua faixa etária.

 

 

Todos estes exemplos mostram a extraordinária capacidade do anime de se tornar num produto socialmente relevante nos tempos que correm, para além de incutir outras personagens que vão fazendo as delícias dos fãs, tal como Roy Mustang, o Alquimista do Fogo e Coronel das Forças Armadas de Amestris, Armstrong e a sua irmã (que é a responsável pela proteção da Muralha de Dracma) e o incrivelmente forte Scar. Eles são também alicerces que tornam Fullmetal Alchemist Brotherhood tão rico.

Mas os sentimentos não acabam por aqui. Há toda uma miscelânea de emoções que irrompe na nossa mente e nos nossos corações que o tornam numa obra-prima. Presenciamos tragédia, horror, perda, felicidade, comédia, constrangimento, espanto, amor, união, amizade e tudo aquilo que, de artificial, nada tem. Portanto, se estas não são razões suficientes para reconhecermos Fullmetal Alchemist Brotherhood como um dos produtos mais relevantes e mais poderosos do século XXI, deixo aqui o apelo para o contestarem.

Leiam a nossa crítica ao live-action de Fullmetal Alchemist aqui e saibam mais sobre a ligação de Greed e Ling na nossa rubrica A 7ª Camada da Arte aqui.

Fullmetal Alchemist Brotherhood

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