Prova dos 9 Rubricas

Bem-vindos à geração dos likes

Prova dos nove: bem-vindos à geração dos likes

O mundo está em constante mudança. As necessidades humanas básicas são inalteradas pelo tempo, mas, à medida que estas vão sendo (mais ou menos) cumpridas, novas necessidades suplementares precisam de ser saciadas. Hoje, o mundo é digital, e a validação nesta nova realidade torna-se cada vez mais ofegante.

Lembro-me das minhas primeiras impressões com as redes sociais. Na minha zona, a primeira base foi o fotolog. Era um espaço muito limitado mas na altura era algo extraordinário… colocar fotos e poder comentar as fotos dos nossos amigos, para além de que nos podíamos batizar digitalmente com uma nova alcunha. Ainda hoje, passados tantos anos, vejo pessoas cujas alcunhas vincaram e tornaram-se parte da sua identidade. Depois chegou o hi5 que se demonstrou ser uma plataforma mais complexa. Lembro-me que já se podiam trocar mensagens privadas com os nossos “amigos” e podíamos deixar a nossa pegada na internet mais facilmente. Podíamos gritar os nossos gostos ao mundo e esperar que alguém gritasse de volta, na mesma língua. E finalmente, um ano ou dois depois, chegou o invicto facebook.

Fui introduzido ao termo mural na altura. Hoje, já é habitual qualquer pessoas ter a sua própria parede digital, e diria até que, quando alguém diz não ter este tipo de estrutura, acaba por ser abordado com um estranho tom de admiração. O que em 2010 era uma trivialidade, é hoje em dia, quase que uma obrigatoriedade. E toda esta série de eventos começa-nos a fazer questionar sobre o que virá a seguir.

No primeiro episódio da terceira temporada de Black Mirror, Nosedive, somos introduzido a uma utopia aonde o estatuto social de cada pessoa é definido puro e simplesmente através da tecnologia, mais precisamente, através das redes sociais. Cada pessoa é classificada de 0 a 5, de acordo com as suas interações sociais com as outras pessoas. Tal como acontece neste episódio, imaginemos que se pretende comprar uma casa no melhor bairro da cidade, esta decisão não depende só da nossa capacidade monetária, mas também, da nossa qualificação social, provavelmente, seria preciso sermos um 4 ou mais para conseguirmos frequentar as melhores zonas, os melhores restaurantes e quiçá, até as melhores praias.

O mais assustador é que já existe um sistema de pontos, mais ou menos similar, na China, o Social Credit System. Atualmente este método não é obrigatório, contudo, o governo chinês pretende tomar mandatório até 2020.

Imaginemos um mundo em que somos julgados (ou melhor dizendo, classificados) por cada ação que tomamos. A pressão constante de ter de fazer aquilo que é politicamente correto. E aliás, um dos maior entraves deste tipo de sistemas parte daqui. O que é na verdade o politicamente correto? Cada sociedade apresenta compassos morais diferentes, e mesmo dentro da mesma sociedade, podem existir divergências. Concordamos com tudo aquilo que o nosso governo faz? Dificilmente isto acontece. E, ou seja, como funcionaria este sistema de pontos se nós não concordássemos com as medidas do nosso governo? Pois bem, o mais certo é que nunca teríamos uma classificação alta o suficiente para possuir aquela casa junto à praia com que todos sonhamos.

O futuro está a chegar mais depressa do que imaginamos. Embora pessoalmente, acredite que esta realidade do sistema de pontos nunca chegará de facto a ocorrer, pergunto-me qual será o verdadeiro impacto que as redes sociais terão na evolução da nossa sociedade. Cada vez, somos mais um mural, do que pessoas, mais digitais do que humanos.

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