A 7ª Camada da Arte Rubricas

O que torna uma personagem feminina forte?

Atomic Blonde, Wonder Woman, Tomb Raider, Orphan Black, Mad Max: Fury Road… Estes são apenas alguns nomes num vasto oceano, e todos eles têm algo em comum: uma protagonista feminina forte. Forte não só no sentido físico, mas sim na construção e essência da própria personagem. Cada vez vemos mais mulheres a liderar um elenco em cinema e televisão. Não é dúvida nenhuma que a diversidade – não só racial – está a assumir um papel importante no mundo em que vivemos. Hoje em dia personagens outrora atribuídas exclusivamente a atores do sexo masculino, rapidamente começaram a ser desempenhados por atrizes com os mais variados atributos.

Mas será que o sucesso destes papéis femininos se deve ao desempenhar de tarefas maioritariamente masculinas? Terão os traços masculinos alguma influência no sucesso destas personagens femininas? Sim, e não. Para respondermos a estas perguntas, temos que aprofundar o conceito de uma personagem feminina. Então, quais são as características de uma personagem feminina forte, e como deve ser escrita?

A resposta que tenho a esta pergunta pode gerar alguma controvérsia: para escrevermos uma personagem feminina forte, temos primeiro que escrever uma personagem forte.

Ao pesquisar sobre o assunto, apercebi-me que a essência de uma personagem não se encontra no sexo da mesma. Género, sexualidade, origens, interações, tudo isto é como se se tratasse da cobertura de um bolo; enquanto que o verdadeiro carácter e personalidade da mesma pertencem ao suculento recheio. De maneira a criar uma personagem forte e interessante, o argumentista deve fazer a personagem o mais autónoma possível, no sentido em que, no desenrolar da ação, ela consiga tomar decisões e agir por si própria, em vez de se submeter à vontade do destino e de acontecimentos externos. Para atingir este auge, a personagem deve possuir flexibilidade. Esta flexibilidade consiste na agilidade entre papéis não atribuídos a um género específico.

Um caso prático disto – e um dos meus favoritos – é Ripley, em Alien: O Oitavo Passageiro. Ripley assume um carácter importante para exemplificar esta questão. No argumento inicial do filme, Ridley Scott tinha escrito a personagem de Ripley para um homem. A alteração de género do protagonista, mesmo a meio do argumento, não comprometeu o enredo. Isto é o exemplo perfeito de flexibilidade, em que o papel de Ripley pode ser interpretado tanto por profissionais masculinos ou femininos. Um exemplo mais recente é Wonder Woman. Diana é uma personagem ativa e que toma iniciativa no que faz. Se fossemos definir o carácter de Diana, esta é doce, gentil e ingénua, porém sonhadora, mas também carismárica e uma excelente guerreira. Podemos concordar que os primeiros são traços geralmente associados ao feminino, mas não haveria qualquer problema em serem atribuidos a um homem. Caso Diana fosse interpretada por um homem, o enredo continuaria a ser consistente e coeso.

Por outro lado, um mau exemplo de flexibilidade de personagem encontra-se em Arwen, d’O Senhor dos Anéis. A essência de Arwen é resumida a que esta “ama Aragorn”, apenas isso. Se porventura mudássemos o sexo de Arwen para masculino, isto iria afetar gravemente o enredo do filme, e colocar em risco a sua execução. Muitos poderão discordar com a minha opinião, e utilizar o argumento de que Arwen personifica a fragilidade, ou que é uma personagem secundária chave para o arco de Aragorn. Tudo isso está correto, mas no que toca à essência da personagem, está demasiado simples, sendo escrita de forma preguiçosa, o que leva a uma personagem bidimensional.

Num rápido resumo, as conclusões que podemos tirar é que, para haver o sucesso de uma personagem feminina, o argumentista tem que deixar todos os aspetos superficiais da mesma para último recurso. Uma vez mais, falando nas camadas do bolo, são os ideais, crenças e forças de um personagem que constituem o bolo em si, enquanto que o género é superficial. É apenas uma cobertura para enfeitar um carácter ou personalidade que, muitas vezes, se encontra escondido. Para o sucesso do filme ou série televisiva, o enredo deve fazer perfeito sentido, independentemente do sexo do protagonista. Aí sim, sabemos que uma personagem foi bem escrita.

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