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A forma da água ou o “meter água” de Del Toro? Uma história de alegado plágio.

Hoje, sobre as polémicas em torno do “Plágio” de The Shape of Water. Há que falar-se nisto. Temos a porta encostada para a Cerimónia dos Óscares e Del Toro lidera a brincadeira com 13 nomeações (melhor filme, melhor realizador, melhor argumento original…). Liderou também as nomeações para os Globos de Ouro, é o menino querido dos Critics’ Choice Awards, um dos favoritos aos BAFTA do Reino Unido…

Mas David Zindel, filho de Paul Zindel, já falecido, acredita que a última obra do mexicano foi inspirar-se numa peça deste último Let me Hear you Whisper, sem que fossem pedidas autorizações, sem que fossem reconhecidos os devidos créditos ou que fossem prestados agradecimentos. Diz David Zindel estar chocado por ter-se feito “um filme tão obviamente inspirado no trabalho do meu falecido pai sem que ninguém o reconheça ou nos tenha vindo pedir autorização”.

Eu fui ver a tal peça. É antiga, de baixo orçamento. Também não vou ser hipócrita e dizer que gostei, ancorando-me e desculpando o projecto com esses factores, porque não é verdade. É um trabalho muito fraco. Mas falando do que interessa, não podemos negar o inegável: há muitos pontos comuns entre “Let me Hear you Whisper” e “The Shape of Water“.

Nos dois casos temos uma empregada de limpeza, meio acanhada e tímida, que trabalha num laboratório de investigação científica. Na peça de 1974, essa empregada é mais velhota e chama-se Helen (Ruth White). Faz amizade com um golfinho. Nós, por cá, temos uma jovem, Elisa (Sally Hawkins), que se que apaixona por uma criatura aquática com a forma física semelhante a um homem. Nos dois casos se estabelece um relacionamento (elas alimentam a criatura às escondidas, cantam para ela, tentam encontrar forma de comunicar) e, depois de descobrir que os responsáveis pelo centro de investigação querem causar dano às criaturas, as empregadas tentam salvá-las.

Tanto na peça como no filme, o modo para retirar as criaturas das instalações é através de um carrinho de roupa suja, e o destino de libertação é o mar. E em ambos os casos as protagonistas são ajudadas por um outro colega do laboratório. Em “Let me hear you whisper“, trata-se de uma personagem masculina, e em “The Shape of Water” trata-se de uma personagem feminina que é interpretada por Octavia Spencer, nomeada para o Óscar de “Melhor Actriz Secundária”.

Uma outra semelhança prende-se com o facto de as criaturas serem estudadas em laboratório para virem a ser “usadas” para fins bélicos. Ou seja, tanto num caso como noutro, o filme passa-se num período histórico no qual decorre uma guerra.

É claro que nem tudo é igual! Tal como referi, as protagonistas são personagens de uma construção absolutamente diferente. Uma nova, outra velha, uma muda, outra de perfeita saúde vocal. Num dos casos chega-nos uma história de amor. No outro, mais parece estarmos perante uma lição ética relativamente a experiências feitas em animais. E é claro que a Fox Searchlight partiu em defesa de Guillermo del Toro, afirmando que o mexicano nunca leu ou sequer viu a malfadada peça do Zindel. E foi mais ou menos isto “Del Toro tem 25 anos de carreira, durante os quais fez dez filmes originais e sempre foi sincero em relação às suas influências”.

De facto, quem conhece o trabalho de Del Toro, sabe que ele tem o seu cunho. E custa a crer que a sua versão aquática d’A Bela e o Monstro seja uma versão melhorada e enriquecida de uma peça, com todo o respeito, “rasca”. Mas a verdade é que há muitas semelhanças. Demasiadas semelhanças para quem afirma que nunca a leu ou viu. E também é verdade que “The Shape of Water” não é absolutamente isento de influências, uma vez que o próprio Del Toro assume que se terá inspirado no filme “O Monstro da Lagoa Negra (1954)“, para construir a sua Princesa sem voz. “Tenho aquele filme na cabeça desde que tinha seis anos. Não a sua história, mas a sua ideia. Pensei: ‘Isto é a coisa mais poética que vou ver na vida’. Fiquei impressionado pela beleza daquilo.”

E também é verdade que esta não é a primeira alegação de plágio que “The Shape of Water” tem que enfrentar. Houve uma comparação com uma produção holandesa chamada “The Space Between Us“, que foi escrita por um aluno da Academia de Cinema da Holanda. E mais uma vez temos uma empregada de limpeza, temos uma criatura marítima, e temos uma história de amor dentro de um laboratório. No fim, a jovem tenta salvar a criatura de um triste fim. A Academia de Cinema da Holanda retirou as alegações, porque afirmou que não havia comparação na identidade dos dois projectos, reforçando o cunho pessoal de Del Toro.

Mesmo às portas da Cerimónia, não cai bem. É como uma mancha na camisa antes de sair de casa para uma festa. Que vos parece?

A meu ver falar em plágio será demasiado forte, mas sem duvida que “The Shape of Water”, sendo um filme absolutamente BRILHANTE, fica relativamente “manchado” com estas condicionantes. E vocês? Acreditam em coincidências?

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