A 7ª Camada da Arte Rubricas

O papel de Black Panther no Universo Cinematográfico da Marvel

PODE CONTER SPOILERS!!!!!

Desde o seu lançamento que o mais recente filme da gigantesca empresa de filmes de super-heróis deixa audiências deslumbradas e encantadas. Críticos por todo o mundo aclamam o filme como sendo o melhor e mais bem conseguido da empresa, e as bilheteiras estão a disparar. Mas o que torna Black Panther tão inovador e diferente dos restantes filmes da Marvel?

Admito que quando saí da sala de cinema não achei demasiado do filme, e até o critiquei bastante pela negativa. Mas passado mais de uma semana, o filme não me sai da cabeça, e confesso que é sem dúvida dos melhores trabalhos conseguidos pela MCU.

Bem, para sabermos onde Black Panther triunfa, precisamos de saber onde é que a Marvel peca constantemente. Estes elementos, apesar de poucos, são de enorme importância para um filme, sendo eles: banda sonora, dar a conhecer novas culturas e sobretudo, desenvolvimento de personagens, e mais importante, um vilão tridimensional!

Em termos de banda sonora, ninguém pode negar que o filme arrasa, e de que maneira! Desde a primeira à última cena que assistimos a faixas sonoras que se encaixam perfeitamente nos momentos a que assistimos, sejam eles de ação ou uma lindíssima panorâmica de todo o esplendor de Wakanda. A banda sonora celebra os êxitos da cultura afro-americana no mundo da música, incidindo bastante no estilo rap. Mas também adiciona faixas mais tradicionais, como cânticos de tribos africanas, que podemos ouvir quando nos deslumbramos pela primeira vez com o reino de T’Challa.

Outro aspeto importante é, inquestionavelmente, o conhecimento de uma nova cultura. É incrível como um filme da Marvel teve ganância e audácia para nos mostrar um novo local no mapa, cheio de caras novas, novas vestimentas e costumes. E, é claro, que não podemos deixar de mencionar que, apesar de não ser o primeiro filme com um super-herói negro no elenco, é o primeiro com o elenco maioritariamente afro-americano, incluindo o realizador. E que elenco!

Mas muito do carisma do filme não era conseguido sem o vilão, Killmonger, interpretado por Michael B. Jordan. Killmonger é provavelmente o mais memorável vilão de todos os filmes da Marvel (batendo até o meu favorito Loki). Mas como é que Killmonger conseguiu desfazer a “maldição” da Marvel? Killmonger não é o clássico vilão que quer conquistar o mundo ou universo pelo simples facto de o poder fazer. Por outras palavras, Killmonger tem um motivo para as suas ações.

Se seguirmos o arco de Killmonger, parece-nos algo cliché para um vilão tão aclamado: perde o seu pai durante a infância; jura vingança; passa a sua vida inteira perseguindo esse objetivo; treina imenso para o cumprir e finalmente atua no seu plano final. Mas onde Killmonger realmente triunfa é na sua ideologia, e na maneira como ela se insere no filme. Killmonger não é apenas um personagem de carne e osso, mas sim uma ideia que marca os espectadores pela forma como é transmitida.

O objetivo de Killmonger é partilhar a tecnologia avançada de Wakanda com os seus “irmãos” oprimidos por todo o mundo, incitando assim uma revolução. Mas Killmonger não planeia conquistar e governar o mundo, mas sim “salvar” o seu povo, só que através de extrema violência. Killmonger até insinua que o mundo está a ficar pequeno, e que num futuro próximo só vão existir os conquistadores e os conquistados. A sua ideia é tomar controlo de regiões estrangeiras através da força, como os nossos antepassados fizeram com o povo africano.

Por outro lado, o povo Wakandiano tem uma ideologia completamente oposta a Killmonger, acreditando que Wakanda estará protegida desde que não se revelem ao mundo; mantendo as tradições e costumes dos seus antepassados intactos. No filme podemos apreciar um acontecimento fantástico, quando tecnologia se mistura com o tradicionalismo africano, criando um ambiente futurista mas também tradicional, cheio de cor e vida.

Estas duas ideias colidem de forma fantástica no filme, tanto que podemos simpatizar com os ideais tanto de Killmonger como do povo de Wakanda:

Killmonger representa o colonialismo, enquanto que os costumes do povo de Wakanda representam o isolacionismo

É claro que T’Challa é apanhado no meio de um conflito de ideais, tentando respeitar os costumes do seu povo, mas não ficando indiferente à capacidade de ajuda que Wakanda pode fornecer ao mundo exterior. Quando Killmonger chega a Wakanda, T’Challa vê-se obrigado a seguir uma dessas ideologias. É claro que o nosso herói não pretende seguir a loucura de Killmonger, e é aqui que o filme lida extraordinariamente bem em relação ao desenvolvimento de personagens. T’Challa não consegue escolher nenhum dos ideiais tão opostos neste espetro tão ambíguo, e forma um, no meio, para si, escolhendo dar a conhecer ao mundo o desenvolvimento de Wakanda, mas não pelos atos bélicos de Killmonger.

E o motivo final que mais me impressionou, tocando também no desenvolvimento dos personagens, é a “realização”. Não a realização do filme, mas sim o momento em que os personagens principais (T’Challa e Killmonger) se apercebem do que estão a fazer de errado. É isto que dá todo o carácter, tanto a T’Challa como a Killmonger, os dois antagonistas. T’Challa começa como um novo rei que não sabe o rumo que tomar, sentindo-se obrigado a seguir os costumes do seu povo. Killmonger procura a sua sede de vingança, destruindo tudo e todos no seu caminho para o conseguir. No final, T’Challa apercebe-se que já não é só responsável por Wakanda, mas sim por todo o mundo, e que, com a ajuda de Wakanda, o mundo poderá prosperar. No oposto do espetro, e nos seus suspiros finais, Killmonger apercebe-se que toda a sua violência tinha sido em vão, e que poderia concretizar muito mais através dos ideais de T’Challa. Esta cena é extremamente forte, pois todo o esplendor do pôr-do-sol em Wakanda desperta a criança em Killmonger, e todas as promessas que o seu pai um dia lhe fez. Algo também que quase nenhum filme da Marvel conseguiu alcançar é precisamente esta relação entre protagonista e antagonista. Em Black Panther, o arco de Killmonger faz T’Challa perceber que o mundo necessita de Wakanda, e que não se devem de esconder mais; enquanto que T’Challa faz Killmonger, nos seus últimos momentos de vida, encontrar a paz interior que estaria enterrada por toda a guerra e rancor que sentia.

Black Panther é um filme repleto de ação, com uma banda sonora fantástica e efeitos especiais incríveis (se bem que em demasia), mas onde realmente brilha é na forma como transmite os ideais e como lida com os arcos dos personagens principais, fazendo do filme um dos melhores e mais significativos da empresa.

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