How Does It Make You Feel? Rubricas

Um céu de baunilha…

Vanilla Sky

Vanilla Sky…

A minha rubrica “How does it make you feel” está de volta para o mês de fevereiro, que é o mais curto do ano. E desta vez decidi trazer-vos um clássico, que, vergonhosamente (ou não) só me chegou ao coração há pouco tempo. Eu sou uma romântica, como penso que têm vindo a reparar. Sou também uma sonhadora. Por isso o Vanilla Sky conjuga estes dois factores na perfeição: o amor e o mundo onírico.

Bem, a verdade é que eu não faço propriamente parte da team Tom Cruise. Mas faço definitivamente parte da team Penélope Cruz. Por isso ignorei a relutância inicial perante o protagonista masculino. Este filme é um remake norte-americano de um primeiro “Abre los Ojos, de 1997. E a história é aparentemente muito simples. David é jovem, é lindíssimo e é magnata. Seja, é um daqueles homens ricos a quem, aparentemente, não falta nada e que vive a vida que almeja e que passa por festas, diversão e mulheres.

Uma dessas mulheres, aquela que parece ser a que conquista um lugar pioneiro no coração de David, é Julie, uma loiríssima interpretada por Cameron Diaz, que é loucamente apaixonada por ele. Mas esse amor não é correspondido, e nós acabamos por ir percebendo que o jovem se sente muitas vezes envolvido numa solidão com casca grossa. Daquelas bem fundas.

 

Solidão essa que só vai dissolver-se quando, finalmente, conhece Sofia. E é com ela que David passa uma noite intensa de conquista, sem que no entanto se envolvam fisicamente, após se terem conhecido numa festa.

Sofia é diferente das outras mulheres, e nós vimos a conhecê-la através dos olhos de David. Uma mulher simples, de uma sofisticação que não se perde no material e na futilidade. Entre os dois estabelece-se um momento quase familiar. Mas na manhã seguinte Julie aguarda por David no carro, junto à porta de entrada da casa de Sofia, e convida-o a darem uma volta.

Vanilla Sky encontra aqui a sua verdadeira reviravolta. Pois Julie, num momento de desenfreado histerismo, ao perceber os seus sentimentos rejeitados por David, provoca um acidente rodoviário com o intuito de se suicidar. O qual é bem-sucedido. Mas esse mesmo acidente deixa David fisicamente irreconhecível. Um jovem que sempre vivera da sua bela imagem, passa a não conseguir viver com ela. Pior…de rosto desfigurado, parece-lhe impossível retomar a conquista amorosa da mágica Sofia.

Mas então e se tudo corresse miraculosamente bem? Se David conseguisse submeter-se a uma cirurgia estética perfeita, recuperasse a sua figura e a sua amada?

Perfeito.

No entanto, a história que nos chega é-nos contada por outro rosto. O rosto de um David mascarado, que habita numa penitenciária e que conversa diariamente com o seu terapeuta sobre um alegado crime que terá cometido: David matou Sofia. Mas não se consegue lembrar se o fez, ou como o terá feito. E assim vamos saltitando. Entre as narrativas que nos vão sendo oferecidas na penitenciária onde está David e que, numa primeira instância, nos podem remeter para uma ideia de momento futuro, e as cenas do suposto “passado”, onde as coisas terão acontecido.

E é aqui que começamos a ter realmente pena do nosso David, cuja cabeça parece ter mergulhado numa panela de pressão, sem que consiga sair. É que de repente Julie aparece renascida do mundo dos mortos, de forma inexplicável. Pelo menos ele assim a vê, no rosto de Sofia. E estas visões são tão intensas e traumatizantes que David começa a agredir a namorada, julgando estar na presença da anterior amante que foi responsável pela sua má sorte.

E num total ato de loucura, perante um histérico Tom Cruise que todos conhecemos, David acaba por asfixiar Julie (ou Sofia) com uma almofada, durante uma cena de sexo tórrido. E assim surgem as interpretações. Stress pós-traumático? Psicose? Desajuste mental ao seu mais alto nível?

Esqueçam todas essas opções. Na verdade David está no limbo, ao assinar um contrato de “Sonho Lúcido”. O sonho lúcido, resumidamente, é um sonho no qual a pessoa sabe que o está a fazer e assume um controlo da realidade onírica na qual está inserida. Tendo em consideração de que toda o universo onírico é uma projecção da mente do sujeito, é a partir dessa consciência que o sonhador se torna capaz de controlar o sonho, contornando a realidade que o rodeia do modo que preferir. Neste caso, Tom Cruise assinou um contrato com a empresa “Life Extension” para que assim fosse, e está, literalmente…congelado.

Não é fantástico, podermos viver eternamente uma vida de…sonho? Em todos os sentidos? Mas e se esse sonho, por força de qualquer motivo externo, se tornasse um pesadelo, fugindo do controlo?

Mas neste caso até temos direito a “Assistência Técnica”, directamente para o interior da mente, a qual nos informa que podemos continuar a escolher viver este pesadelo ou…acordar. (Matrix, is that you?) O certo é que neste final de filme David vê-se confrontado com uma decisão deveras tumultuosa.

O que escolheríamos nós? Viver para sempre a nossa vida “de sonho” com problemas de software…ou simplesmente acordar para uma nova realidade, longe de todas as zonas de conforto com as quais julgamos não ser capazes de estar?

O mais curioso de tudo…é que ainda que a “Life Extension” não exista actualmente nos nossos dias, muitos de nós escolhemos viver uma vida em estado de embalsamento. Não através de sonhos lúcidos arquitectados, mas através das panóplias de medicamentos que impomos a nós próprios, do modo de piloto automático em que vivemos, dos vícios aos quais nos entregamos. Todos estes mecanismos de defesa que mascaram o nosso sofrimento, e nos impedem de viver a realidade.

David personifica a fuga da realidade:  no seu caso, a desfiguração do rosto constitui um trauma limite, mas qualquer experiência pode ser o gatilho para o abandono de um projecto existencial inteiro, na medida em que a significação e o sentido de uma vida pessoal é sempre e em última instância, criação e responsabilidade do próprio indivíduo.

Para ser rigoroso com aquilo que Vanilla Sky nos dá, a conclusão cruel é inevitável:  a matéria que compõe os sonhos, a mesma que pode ser contexto para uma maior compreensão de si mesmo, é perfeitamente adaptável às necessidades de uma mente que queira fugir da realidade, do mundo e de si mesma.

“Open your eyes!”

Trailer – Vanilla Sky

Comments