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País Irmão – Series Finale – 1ª Temporada

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Desde 15 de Setembro de 2017 que País Irmão foi presença semanal assídua na noite de segunda-feira na RTP, salvo na interrupção da época das festas de Dezembro.

Sob a chancela da Stopline Filmes, o realizador Sérgio Graciano transpôs para o ecrã 18 episódios escritos por Hugo Gonçalves, Tiago Santos e João Tordo.

O Governo Português está envolvido num caso escandaloso: o “Caso Que Não Se Pode Mencionar”. Perante isto só há uma coisa a fazer: distrair a sociedade com alguma coisa que os prenda e os deixe tão interessados que o caso lhes passe ao lado.

A solução eleita é desenvolver uma novela! Uma grande produção histórica. Porém, a própria solução levanta um outro problema: como financiar tão grande produção? Fácil! Procuram-se investidores e know how no país das novelas: o Brasil.

É este o ponto de partida para 18 episódios de sátira e comédia de alta qualidade com um elenco espetacular.

Luís Ávila (Afonso Pimentel) e José Ávila (José Raposo) são as duas personagens em torno de quem as coisas vão girando na maior parte das vezes. São respectivamente o guionista e o realizador da novela “Corte Tropical”. Os dois têm os seus próprios dramas familiares que funcionam muitas vezes como motivo de distanciamento no início. Mas com as peripécias da produção da novela este distanciamento vai sendo diluído em prol de algo maior.

Susana (Victória Guerra) é uma jornalista que desde o princípio está intrigada com todo o processo e vai até ao fim para descobrir o que se passa e qual a ligação entre a IFUBEG (uma sátira exemplar da IURD), produção da novela e o Ministério da Cultura, nomeadamente a Ministra Manuela Azedo (Margarida Marinho) e os assistentes Fernando (Dinarte Branco) e Vera (Filipa Areosa).

O “elenco” de Corte Tropical conta com nomes como Thaís (Jéssica Córes), Mimi (Bruna Quintas), Gariela (Maria João Bastos) e Tony Santa Clara (Virgílio Castelo).

Thaís é a poster girl da IFUBEG na novela. Um suposto modelo de vida para a igreja que forçou uma imagem na rapariga que estava um pouco longe da realidade. Mimi é o oposto. Completamente fora da norma e padrões da dita igreja é considerada uma ameaça à estabilidade de Thaís. Garbiela e Tony Santa Clara são as estrelas da novela. Interpretam a rainha e o rei, respectivamente. Tony é o galã máximo da novela portuguesa e Gabriela é uma trabalhadora compulsiva que encarna as suas personagens a um nível quase doentio, mas consegue interpretações fantásticas.

Além disto há que ter em conta o jogo de bastidores pelo controlo criativo da novela. É esse o principal motor da ação em País Irmão. De um lado, a IFUBEG com Márcio (Marcos Pasquim) a controlar a Thaís e Elias Malaquias (Alejandro Claveaux) a controlar a novela e do outro lado Luís e José Ávila, Branca (Natália Lage) e Rafa (Rodrigo Pandolfo). Dos dois lados estava Capote Raposo (Nuno Lopes). O personagem de Nuno Lopes é talvez o mais peculiar da trama. Ele tenta sempre contornar as situações todas tendo a sua própria agenda e os seus próprios objectivos em mente.

A juntar a todos estes personagens há ainda um exército de outros com importância menor para o enredo principal, mas que acrescentam bastante ao produto no seu todo. São exemplo disso Pilar (Rita Loureiro), a esposa de Tony Santa Clara, as maquilhadoras Rute (Paula Lobo Antunes) e Clara (Catarina Gouveia) e o intelectualíssimo Bernardo (Cristovão Campos), o namorado de Susana.

Qualidade de interpretação

Em termos de interpretação gostaria de destacar alguns nomes:

  • Desde logo, José Raposo que está ao nível esperado dele: fantástico;
  • O Afonso Pimentel não tem um personagem fácil. Porém, interpreta-o muito bem, transmitindo-lhe um estilo próprio, sobretudo na interação com as restantes personagens e nos momentos de maior comicidade. Conheci o trabalho do Afonso Pimentel em Adeus Pai e gostei. Em Coisa Ruim fiquei absolutamente fã do ator. País Irmão veio apenas consolidar a opinião globalmente positiva que tenho dele. Embora já tenha feito papéis em projetos menos interessantes, a carreira de um grande ator também se faz desses trabalhos;
  • Já há muito tempo que não via Virgilio Castelo a um nível tão bom;
  • Maria João Bastos prova aqui que é um camaleão e pode fazer bem qualquer tipo de papel;
  • O contingente brasileiro, com Natália Lage à cabeça, confere um colorido muito especial à ação e deu-lhe uma maior qualidade. No geral o elenco é muito bom e o misto de atores mais experientes e menos experientes está feito na dose certa.

Qualidade técnica e conclusão

Em termos técnicos é uma das produções portuguesas mais interessantes que já vi. Começando nos planos escolhidos até à edição e colorização.

No que toca ao enredo, não é a melhor trama de sempre, mas cativa. Todos os episódios deixam uma forte expectativa relativamente aos próximos e representam um crescendo de qualidade. Toda a série é, na realidade, apresentada assim nesse crescendo. Infelizmente, algures a meio do último episódio, a coisa perde-se um pouco e senti que o capítulo final se dividiu em duas partes. Uma primeira parte em que todos personagens encontram o seu caminho e uma segunda parte, nos últimos 10/15 minutos, em que fiquei a olhar para o ecrã da TV e a pensar “que programa é este que eu estou a ver?” como se tivessem mudado de canal e eu não me tivesse apercebido…

A série está disponível na íntegra na RTP Play e não podem perder esta obra de ficção portuguesa.  A qualidade da série bate facilmente muita coisa que vem de fora e que o público idolatra. Permitam-me que conclua com o seguinte cliché: “o que é nacional, é bom!”

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