Cinema Críticas Uncategorized

Crítica: Last Flag Flying

Título orginal: Last Flag Flying

Título: Derradeira Viagem

Realizado por: Richard Linklater

Elenco: Steve Carell, Bryan Cranston, Laurence Fishburne, J. Quinton Johnson

Duração: 125 min.

Se existe alguém capaz de projetar a vida, com todas as suas banalidades e simplicidades, esse alguém é Linklater. Mais do que isso, Linklater, dá espaço para que as suas personagens possam conversar entre si e connosco. Escutar é uma dádiva nos seus trabalhos e embora, Last Flag Flying não consiga perfazer tão fielmente tudo isto, não deixa de ser uma obra digna de se ver, e por fim, nos deixar a refletir.

Em 2003, Larry “Doc” Shepherd (Steve Carell) recebe a trágica notícia que o seu único filho morreu em missão em Bagdade. Perturbado com a sua perda, Larry decide procurar os seus velhos camaradas, Sal e Mueller, com quem ele já não entrava em contacto desde que ele próprio deixou o serviço militar.

Os anos que partilharam em Vietname tiveram um impacto enorme nas suas vidas e a forma como cada um lidou com o pós-guerra foi invariavelmente diferente. Desde então, todos seguiram caminhos diferentes, Larry construiu uma típica família americana, Sal tornou-se proprietário de um bar, e Mueller abriu o coração à religião e à espiritualidade.

Last Flag Flying é o mais recente trabalho de Richard Linklater, realizador de culto, conhecido pela trilogia Before e o famoso filme que durou 12 anos a ser gravado, Boyhood. Mais importante ainda, este realizador é conhecido por fazer a difícil tarefa de tornar o dia-a-dia num filme. Sem desvirtuar a vida e mostrando-a como ela é. Maravilhosamente banal.

Neste seu último trabalho, contudo, este realismo, que Linklater tão bem consegue produzir, parece ter sido “hollywoodizado”. As famosas conversas dos seus filmes, que nos fazem recordar uma habitual conversa de café com amigos, muitas vezes perdem-se. No momento em que era precisa a magia que só Linklater consegue produzir, não há nada. Ainda assim, este não deixa de ser um trabalho maturo e bastante humano do realizador. Apenas não esteve ao mesmo nível daquilo a que ele já nos habituou.

O filme conta com um trio experiente e já conhecido. Steve Carell, no papel de “Doc”, Bryan Cranston interpreta Sal Nealon, e Laurence Fishburne como o reverendo Richard Mueller. É especial observar um diretor tão talentoso, direccionar atores igualmente talentosos e dar espaço para que as suas personagens se desenvolvam. Bryan Cranston esteve especialmente bem ao representar o ex-soldado que tenta não perder a sua excentricidade com a idade.

Em vários momentos ao longo do filme, somos confrontados com a dualidade das situações: a espiritualidade versus a mundanalidade. Ver a perspetiva de um homem que envelheceu acreditando na religião e, por outro lado, a de um homem que, depois de ter passado pelos horrores da guerra, não consegue acreditar na existência de um Deus justo. Vão aparecendo, várias vezes, estas perspetivas diferentes em relação ao mesmo assunto o que dá um dinamismo especial aos acontecimentos. Podemos torcer por uma opinião ou pela outra.

Apesar de Last Flag Flying não ser tão persuasivo como os trabalhos anteriores de Linklater, não deixa de ser uma obra digna de ser vista. Leva-nos a refletir sobre um lado que, os outros filmes de guerra, geralmente deixam de parte: o pós-guerra e o “será que tudo isto valeu a pena?”

É uma obra atrevida por desafiar o orgulho americano nos seus soldados e nas suas guerras. O heroísmo americano é posto em causa. Os homens criam a guerra e a guerra cria os homens, mas até que ponto é que nós queremos continuar a ser criados por ela? É esta a questão que fica no ar.

Trailer | Last Flag Flying

Comments