How Does It Make You Feel? Rubricas

Beleza humana?….Seja ela ou não americana.

American Beauty

“Sometimes there’s to much beauty in the world… I feel like I can’t take it, and my heart is Just going to cave in.”

 

Hoje decidi reflectir sobre um clássico. No mês passado trouxe-vos o Kevin (podem ler a rubrica aqui), que penso que não é assim tão conhecido por tanta gente. Mas o American Beauty é assim um daqueles clássicos com “C” grande. Pode ser um bocadinho arriscado trazer para aqui conteúdo com o Kevin Spacey, dado os mais recentes acontecimentos, mas…arrisco. Porque este filme é fantástico. E é mesmo daqueles que faz jus à pergunta “How does it make you feel?”

A mim faz-me sentir a morte. É verdade. Já desde a primeira vez que o vi, muito adolescente e cheia de dúvidas, como aliás todos os adolescentes sempre estão. E, assim, como não poderia deixar de ser, faz-me sentir invariavelmente a vida. Porque andam de mãos dadas, sempre. O filme é sobre a vida. Tudo aquilo que somos e fazemos, não fazemos e deixamos de ser. E são assim duas horas de montanha russa emocional que nos põe a pensar o que é que andamos cá a fazer.

O Lester, Kevin Spacey, conta-nos a história. É engraçado como ele o faz, mesmo já estando morto, embora ainda não o saibamos. Será que ele mesmo sabe? O certo é que traz-nos uma extenuante transformação pessoal. 8 em cada 10 pessoas, arrisco, vivem intensas e efémeras epifanias como as de Lester. Maior parte delas não o diz ou não o admite, mas vive-as.

Falo de…um pai de família que não suporta o seu trabalho, que deixou a relação com a esposa cair em desuso, que não mantém qualquer manifestação de confiança ou afecto pela filha. Que passa a ser um homem que só quer viver intensamente, como se a vida fosse morrer a qualquer momento, numa maratona contra o tempo perdido. Há quem lhe chame a crise de meia idade. Sex, drugs and rock n’roll.

Todos nós queremos ser o Lester, certo? Ou pelo menos aqueles 8 em 10 (só?). Mas geralmente não temos coragem. E é logo aqui que o filme nos prende. Na identificação com uma personagem que poderia ser qualquer um de nós, presos numa vida medíocre e sem qualquer significado palpável…mas que tem a ousadia para dar uma cambalhota e mudar tudo isso. Esse é o grande mérito do argumento de American Beauty: envolve-nos de tal maneira que nos põe frente a frente com a vida. Com o ser humano e tudo aquilo que ele é capaz de ser, pensar e fazer. Que nos põe frente a frente connosco. Ou pelo menos com um sonho de nós. E os americanos sempre foram exímios a vender-nos sonhos, quem melhor que eles?

Basta que reparemos em todos os detalhes patentes nas vidas perfeitas destas pessoas: casas lindas, perfeitas, simétricas! Belos carros, mobiliário rigoroso, sorrisos publicitários e cabelos impecavelmente empoleirados nos topos das cabeças. The American Dream. No fundo, as pessoas coexistem em espaços semelhantes àquilo que elas mesmas almejam ser: perfeitas.

Mas não Lester Burnham. Ele não precisa de um carro perfeito na garagem, de uma casa linda num bairro rico, igual a todas as subsequentes dos seus vizinhos, de uma mulher que, ainda que bem sucedida e impecavelmente arranjada, perdeu o seu espírito livre ou aquele emprego estável que odeia.

No fundo ele só precisa da bagunça da garagem, umas máquinas de musculação, uns charros ocasionais e Ângela, a amiga sexy e muito loira da sua filha. Ele só precisa de ser livre, e sentir-se vivo. Longe de máscaras e do politicamente correcto.

Curioso…sabem como o filme termina? Eu não gosto muito de dar Spoiler, e prefiro sempre que vocês procurem ver por vocês mesmos e sintam, tirem as vossas conclusões. Mas aqui vou dizer-vos. Lester Burnham é assassinado.

Na verdade, como, ironicamente, acabam por ser a maioria dos nossos sonhos. Porque vivemos numa ilusão de “beleza americana”, que nada mais é do que uma prisão convencional repleta de regras politicamente correctas.

E está nas nossas mãos ir mudando isso. Temo-lo feito?

Trailer – American Beauty

 

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