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É tudo uma questão de tempo, quando o tempo deixa de ser questão…

The Hours

Ah…o tempo. Esse nosso inimigo voraz. É quando somos felizes que ele solta as asas e nos voa desenfreado, como uma ave em migração. E é quando estamos tristes que se torna presença inequívoca na nossa sala-de-estar emocional. Faz-me lembrar um pouco as viagens de comboio. O comboio é sempre o mesmo; trata-se daquele empilhar de peças metálicas impessoais e ferrugentas, barulhentas e desagradáveis. Mas às vezes, sabe-nos bem, outras sabe-nos mal. Quando nos leva ao encontro da felicidade, esse comboio suaviza-nos o coração. Quando nos traz de volta à dura realidade dos factos, enche-nos o rosto de prantos sofridos. Ou vice-versa. E é por isso que eu tenho cá para mim que o tempo é como os comboios. Depende da direção que lhe damos.

Fala-se muito dessa questão de tempo, quando o tempo deixa de ser questão, n”As Horas. É dos meus filmes preferidos. Para já porque é baseado num livro (é claro que o livro é melhor, geralmente é o que acontece, mas nunca deixa de ser giro ver as palavras ganharem um rosto), de Michael Cunningham. E depois porque nos mostra que a vida pode ser uma colecção das mais puras angústias e profundos ardores. Não quero com isto dizer que a vida não presta, de um modo geral. Quero apenas reforçar a ideia de que a tristeza, a depressão e os estados de espírito mais negros são reais, e não devemos subestimá-los. Pois são comuns a todos nós.

São 3 mulheres. Todas elas diferentes, de mundos separados, mas que partilham algo muito seu e muito nosso: a dor. O sofrimento. Todas estas mulheres sofrem, silenciosamente, submersas nos seus dilemas. O filme é tão forte emocionalmente que o expectador se sente angustiado com a pestilência de tamanho sofrimento, incomodado com o negativismo presente na vida alheia. Como quando passeamos na rua e nos sentimos perturbados com a visão da pobreza, da carência, da fome, e viramos o rosto na esperança que o nosso coração não sinta o que os nossos olhos não podem ver.

Falemos delas, por serem tão ricas a todos os níveis.

Virgínia, 1923. Uma Nicole Kidman irreconhecível fisicamente. Escreve o seu romance, aprisionada numa casinha pitoresca, numa cidade monótona, a braços com uma saúde mental débil e frágil como uma envergonhada folhinha de outono. Obsessiva, paranóica, depressiva, procura a primeira frase do seu livro.

Laura, 1951. Uma dona de casa avassaladoramente infeliz. Esta é para mim a melhor das personagens. Julianne Moore, a minha preferida das preferidas. Laura busca a perfeição. Quer ser a mãe perfeita, a esposa dedicada, num bairro tipicamente americano manchado por uma mentalidade de aparências. Nota-se como é extremamente sufocante para esta mulher viver com esta ansiedade, com esta máscara de good house wife prestes a rebentar por dentro. É incrível o auto criticismo, o sentimento de culpa por achar que não corresponde à imagem por si e pelos outros idealizada. A sua necessidade extrema de agradar os outros.  O dano psicológico é imenso.

Clarissa, 2001. Uma Meryl Streep sofisticada que parece encarnar a personagem do romance de Virgínia numa versão modernizada, prepara-se para dar uma grande festa em homenagem a um grande amigo poeta que se encontra em estado terminal. Social, culta. Uma mulher de fachada forte e independente, mas vulnerável. Que segredos esconde aquele seu sorriso, quando se deita junto da sua companheira?

Esta é, para mim, uma obra-prima. Um filme que desperta as lágrimas nos meus olhos, marcado de uma elegância e delicadeza extremas. Todas as cenas parecem ter continuidade entre si, as personagens interligam-se e até mesmo alguns gestos e mensagens do filme ganham diferentes tonalidades conforme as mãos que os “abraçam”.

Mas, acima de tudo…a mensagem.

A depressão é real. Portugal é o país europeu com maior taxa de perturbação mental, no qual o consumo de antidepressivos e outros medicamentos psicofármacos não pára de aumentar. A doença mental é tão incapacitante e dolorosa quanto a doença física, levando a que a pessoa experiencie estados de profundo desalento e solidão. Sem que, muitas vezes, se aperceba porquê. Como Virgínia Woolf dizia ao seu marido no filme: “Eu luto sozinha contra a escuridão, na mais profunda escuridão, e só eu sei o que isso significa. Só eu posso entender a minha condição. Tu vives sob a ameaça da minha extinção. Eu também vivo sob essa ameaça”.

Mas é preciso mostrar a estas pessoas que não estão sozinhas. É preciso mostrar-lhes que haverá sempre alguém disposto a ajudá-las a enfrentar as piores “horas” das suas vidas. Que esta batalha só se torna difícil com o passar do tempo, se não houver ninguém que com elas caminhe lado a lado, nos momentos de maior angústia.

TRAILER – As Horas

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