Cinema Contos de Portugal

Tardo – O ADN das nossas gentes nas mãos de Sérgio Martins

“Há estórias que não se encontram nos livros. São estórias gravadas nas águas dos riachos, nas cascas das árvores e nas memórias das gentes. Gente que habita esse Portugal profundo e que não esquece os seus antepassados e crenças. O bem contra o mal ou o divino contra o profano são os temas que dão forma a muitas dessas estórias do Portugal que não esquece os seus contos. Quem é que nunca ouviu falar das 3 Marias, da Lenda da Moura ou mesmo do Papão? Não andes por aí à noite que ainda te aparece o Tardo. Quantos de nós já ouvimos esta expressão sem saber ao certo o que é?”

De facto, muitos de nós podemos não conhecer este tal de Tardo, de que Sérgio Martins nos fala. Mas estou certa que uma grande maioria terá já ouvido falar de outras quaisquer criaturas místicas, já desde tenra idade, na altura dos contos antes de adormecer e dos sustos que os nossos avós nos pregavam, quando nos portávamos mal. Eram esses tais contos que voavam de boca em boca, e que, mais ponto menos ponto acrescentado, se perpetuavam na memória das gentes.

Foi com relativa nostalgia que tive contacto com este trabalho do Sérgio. Também eu passei muitos Verões da minha infância em Penha Garcia, uma aldeia toda simpática e pitoresca ali para os lados de Castelo Branco, e já por essa altura a nossa avó nos dizia que não andássemos sozinhos de noite porque ainda nos apareciam as bruxas e os duendes de barrete vermelho que nos comiam os pés. Acho que a mitologia e o folclore português são temas pouco estudados e documentados e esse é sem dúvida o primeiro ponto positivo que tenho a apontar ao Sérgio.

Obrigado por teres feito um bom trabalho de investigação, dentro de um tema relativamente escondido nas algibeiras dos nossos antepassados, infiltrado nas pedras dessas aldeias pelo nosso Portugal fora.

Mas então afinal quem é o Tardo, de que tanto se fala? A verdade é que não existe uma definição, forma ou feitio exactos, dependendo, portanto, da região geográfica da qual estamos a falar. E dos tais pontos que foram sendo acrescentados aos contos. Não querendo entrar em grandes detalhes, uma vez que não é o meu objetivo dar-vos a conhecer os conteúdos deste trabalho, posso apenas referir que o Tardo (ou Trasno) é uma figura mitológica portuguesa que está associada a algo negativo.

Para alguns, deixa-se representar pela forma de ruído (como o galopar desenfreado de um cavalo ou o uivar ganancioso do vento), ou de um animal (como um cão, um porco ou uma cabra). Para outros, trata-se de um duende algo assustador, de barrete vermelho. Nalguns casos só assusta e importuna (como por exemplo na zona da Galiza), nos outros tenta causar dano a quem consigo se cruze. No Minho, por exemplo, está associado à noção de pesadelo, aos conceitos de medo e escuridão.

O documentário torna bastante clara a ideia de que estes conceitos e estas figuras mitológicas se distribuem pelo nosso país, ainda que possam tomar formas diferentes. São também referenciadas outras figuras, como os Corredores (também chamados de Corrilários ou Fado Corredor), os Lobisomens, as Bruxas. São cerca de 50 minutos nos quais nos deixamos guiar pelo místico, pelas nuances da religião católica que acabam, invariavelmente, por baptizar estas lendas. E nem damos pelo tempo a passar.

Outro aspeto que achei muito interessante no trabalho do Sérgio foi a diversidade de testemunhos que ele conseguiu reunir. Desde o povo na sua forma mais pura e rudimentar, as estórias e contos das gentes da terra, até figuras ligadas ao ensino e à literatura, com provas dadas de investigação nestas áreas. A diversificação desta panóplia testemunhal enriquece o documentário, porque vamos buscar um bocadinho de tudo. Gostaria muito de ter visto alguém ligado à própria religião católica a dar o seu parecer relativamente a estas temáticas, e deixo assim a minha sugestão para um próximo trabalho.

No que a aspectos técnicos diz respeito, há pouco a apontar. Planos simples, sem grandes aventuras, som nítido, na minha opinião o documentário tem muito boas vozes-off, nomeadamente a “narradora” que o inicia e finaliza.

No geral, eu penso que “O Tardo” é um bom trabalho do Sérgio Martins. E acho que ele tem toda a razão quando diz que são estas estórias que mantêm o ADN do povo. São estas lendas e muitas outras que nos permitem ir mantendo a nossa identidade ao longo dos séculos.

Por isso talvez possamos todos pedir ao Sérgio que não pare, nunca, de nos contar as suas estórias. E vocês, têm alguma para nos contar?

TRAILER – O TARDO

Comments