Cinema Críticas

Crítica: Death Note

Death Note

Título: Death Note
Realização: Adam Wingard
Elenco: Nat WolffMargaret QualleyLakeith StanfieldShea WhighamWillem Dafoe
Duração: 101 minutos

Indiscutivelmente, Death Note é uma das sagas mais bem amadas dos fãs de animes no século XXI. Uma história negra repleta de twists que coloca o próprio protagonista como o vilão principal, o manga popular já deu lugar a uma fiel adaptação para o pequeno ecrã em formato anime, vários filmes live-action oriundos de terras nipónicas e uma vasta gama de merchandise que continua bem ativa nos dias de hoje. Dado a sua popularidade, era mais que previsível que Hollywood quisesse trazer a sua própria versão para o consumidor doméstico. E, também de forma bastante previsível, acaba por ser uma grande desilusão.

Digam-me se reconhecem esta história: um estudante encontra um bloco de notas que lhe permite matar qualquer pessoa cujo nome ele escreve nele. Intoxicado pelo poder que lhe foi concedido, esse mesmo estudante decide tornar-se num Deus do Novo Mundo. Isto também desencadeia uma perseguição do “gato e do rato” quando esse mesmo estudante enfrente um dos detetives mais brilhantes do mundo. Se reconhecem esta breve sinopse personalizada, então parabéns, reconhecem de trás para a frente a história original. Pois bem, parece que, para esta nova versão, os argumentistas decidiram ir pela via do “mais fácil”. Sim, o estudante continua a encontrar o mesmo bloco de notas e acaba por se embebedar com tanto poder. O problema reside na sua execução. O jogo de “xadrez” entre Light (Nat Wolff) e L (Lakeith Stanfield) acaba por pecar bastante por se tornar numa perseguição sem qualquer onça de inspiração.

Não me vão estar a ver a queixar sobre a polémica do whitewashing, visto que deram a tentativa de americanizar uma propriedade japonês para um contexto que faça maior ressalto para o público alvo. Tóquio foi trocado por Seattle, Light Yamagi foi trocado por Light Turner, Misa Misa foi trocada por Mia Sutton, L deu lugar a um ator de cor, e por aí fora. Desde que respeitassem o que fora feito anteriormente, não teria quaisquer razões de queixa. Mas aí é que está o grande problema: ao invés de respeitar o material de origem, estas novas versões em nada encaixam nas nossas perspetivas dos personagens. Na versão original, Light era tido como um génio que sabia travar as suas batalhas de forma sábia através de manipulações; em vez disso, temos um delinquente inteligente que consegue cometer erros atrás de erros. Mia (Margaret Qualley) é uma cheerleader que possui um lado obscuro e que consegue ser também manipuladora, um contraste com a jovial (mas ingénua) Misa Misa. L, apesar dos seus tiques, é um detetive brilhante, mesmo no seio dos órgãos policiais; aqui vemos um L mais emocional que o habitual e que também comete erros atrás de erros. A lista infinita de insultos à memória dos fãs continua.

Mas o filme, apesar disso, também possui elementos que trabalham a seu favor. A classificação para maiores de 18 permite mostrar um nível de violência que quase rivaliza com o próprio anime. No entanto, esta violência corre o risco de se tornar numa versão desbarata de uma certa saga chamada Final Destination, também conhecida pelas suas mortes mais estapafúrdias. Adam Wingard é um experiente realizador de filmes de terror, contando com alguns sucessos como V/H/SYou’re Next ou The Guest, só para enumerar alguns exemplos. E é caso para dizer que Wingard, em certos momentos-chave, consegue ser relativamente eficaz em termos de conceder um pouco de terror pelo meio. Se bem que torna-se um pouco hilariante ver Light, um personagem muito com os pés assentes na terra, a gritar que nem uma menina de 8 anos ao ser assombrado.

E agora falo-vos do grande MVP do filme: Ryuk. Claro que este icónico Deus da Morte está sempre envolto em sombra e também aparece em cena de forma esporádica. Mas quando aparece, Ryuk consegue ser uma das personagens mais marcantes de um filme que fica aquém das expectativas já muito baixas. Tal deve-se ao afinco que Willem Dafoe dá ao personagem, concedendo uma veia bastante sarcástica para um ser maioritariamente sinistro e psicopata.

Isto tudo serve para dizer o quê? Se querem entrar de cabeça para este mundo louco que é Death Note, a série de anime continua a ser a melhor das alternativas. Isto porque, e numa visão geral, este filme da Netflix merecia ter o nome estampado, em letras engarrafas, no livro titular. E tenho dito.

Trailer: Death Note

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