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O desaparecimento silencioso das séries sociais

séries sociais

2017 é um ano em que a fraternidade, a igualdade e a liberdade continuam a ser negligenciadas. A sociedade não consegue curar-se de tantas feridas que foram forçosamente infligidas ao longo dos séculos. A homofobia, o racismo, a discriminação, o bullying e todas estas grandes atrocidades sociais ainda serpenteiam por muitas mentes e corações pelo mundo fora. O ser humano é um ser complexo. Um que não restringe espécies no seu ódio, no seu rancor, na forma mais impura do seu próprio divertimento. Infelizmente a opressão é algo que se enraizou e que nem de guindaste consegue ser arrancada.

A televisão superou o cinema. Vivemos na era dela. Uma era em que a riqueza cultural e social conseguiu florescer e educar um maior número de pessoas. Enquanto a indústria do pequeno ecrã se esforça para revelar graves problemas sociais, o cinema tende a escurecê-las. Porquê? Porque o dinheiro continua a ser um fator primário. As vendas para os mercados mundiais continuam a superar a necessidade de bons retratos sociais. Até mesmo nos filmes mais comerciais que tentam passar uma imagem de diversidade, por vezes, o resultado é ainda mais precário do que se pensa. Por cada tentativa, os produtores temem as reações dos líderes do planeta. O negócio torna-se mais importante que a missão educativa.

No novo remake do filme Power Rangers, uma das personagens femininas expressa que tem preferência sexual por mulheres (sem nunca o dizer diretamente). No remake live-action de A Bela e o Monstro, LeFou pisca o olho a um taverneiro. As produtoras vangloriam-se por dizer que os seus filmes incluem personagens LGBT. Isto fez com que a Rússia classificasse o filme para maiores de 18 anos e, certamente, não o baniu porque fez um acordo qualquer. Mas qual é o verdadeiro problema de tudo isto? O cinema está a tentar aproveitar um “crédito” que, de facto, não o merece.  De que vale um piscar de olhos ou umas palavras que suavemente assumem a sexualidade de uma das personagens? Em que parte entra o veículo educativo da 7ª arte nestes dois casos? Não ficamos a conhecer as personagens. Desconhecemos a sua vida pessoal. Nenhuma delas se revela inteiramente ao público que assiste ao filme. Um piscar de olhos e uma frase pouco direta não são suficientes para “creditar” um filme como sendo LGBT-friendly. E aqueles que, de facto, tentam apontar precisamente para estas questões, o que lhes acontece? O cinema socialmente relevante vai sobrevivendo graças aos talentosos cineastas independentes. Aqueles que fazem cinema com um propósito. Com amor e dedicação e que não se preocupam com o dinheiro que o filme eventualmente possa fazer. Se for um sucesso? Melhor ainda. O objetivo primário? Contar uma história que possa, de alguma forma, ajudar alguém no mundo que vive o seu dia-a-dia camuflado de uma sociedade tão agreste como a que tem de encarar lá fora.

A televisão é um meio que foi (quase sempre) ofuscado pelo grande colosso do cinema. Duas formas de arte visual distintas mas que têm um objetivo comum. Contadores de histórias que expressam o seu amor pela arte da imaginação e da criatividade. Ambas têm os seus problemas e estão longe de se encontrarem no esplendor da sensibilização social.

Se, no cinema os problemas de retratos LGBT predominam, já na televisão (e por televisão também se inclui as recentes plataformas de streaming) o whitewashing começa a emergir como um problema bastante grave. Hollywood continua a reger-se demasiado pelo lucro, pela força da necessidade de ter talento chamativo. Scarlett Johansson certamente seria mais chamativa que qualquer atriz japonesa para o remake live-action de Ghost in the Shell. A difusão do seu nome atrai uma comunidade aparentemente mais abrangente do que qualquer atriz famosa do Japão. Isto é um facto confirmado? Não vamos saber porque a escolha já foi feita. No entanto, Scarlett Johansson tirou o lugar de uma potencial candidata a uma fama que traria muito mais conforto para a comunidade japonesa. O anime é um estilo enraizado na sua cultura, logo, faz sentido que o remake (seja em que língua for adaptado) partilhe das raízes ao contratar um elenco da mesma comunidade. As oportunidades no cinema e na televisão não devem ser restritas ao sucesso mas devem abraçar a sua natureza diversificada. O respeito pelas raízes é importante para que os produtos não sejam comprometidos pelo mesmo.

Iron Fist, o novo super-herói da Marvel, foi também alvo de muitas críticas. Poderá não ser um caso de whitewashing evidente como o de Ghost in the Shell, porque Danny Rand, no material de onde foi adaptado, não é asiático. No entanto, a Netflix poderia ter noção que o background do próprio herói podia moldar-se à crescente aposta e apelo à diversidade. Não o fez e o mundo reagiu.

Apesar destas dificuldades da indústria televisiva, ela própria consegue superar-se noutras questões. Séries como Insecure, black-ish e Dear White People mostram que há público para todo o tipo de televisão e que os retratos sociais da comunidade afro-americana não têm que se reger por clichés ou por opressão para retratarem uma comunidade. How to Get Away with Murder é outro exemplo de televisão social rica; Viola Davis é uma força da natureza e, com ela temos a primeira protagonista afro-americana bissexual na televisão. A sexualidade é outro fator que a série produzida por Shonda Rhimes trata com carinho e dedicação, rompendo com tabus e preconceitos.

Mas as séries de televisão que são ricas em questões sociais estão a desaparecer. Ou, pelo menos, não são deliberadamente analisadas em prole do seu objetivo. A Netflix recentemente tem feito algumas dessas asneiras mais evidentes: o cancelamento de Sense8 é um dos maiores golpes que a televisão sofreu este ano. A série das irmãs transsexuais Lana e Lilly Wachowski é uma celebração do ser humano. Uma viagem à procura da aceitação, da globalização sexual, da sociedade que é desprovida de todos os seus ódios mais dolorosos. Cancelarem Sense8, especialmente com um cliffhanger maroto, foi a gota de água para todos os seus fãs. Ainda que a plataforma tenha voltado atrás na sua palavra e nos presentear com um especial de 2 horas que deverá chegar no próximo ano, a ausência anual de Sense8 é uma vitória para o racismo, para a discriminação, para a homofobia. Sense8 é um conto obrigatório. Uma das poucas séries que foge aos estereótipos mais vulgares para mostrar que não importa quem sejas, não importa que idade tenhas, não importa qual seja a tua etnia, religião, orientação sexual, tens o direito e dever de ser feliz e de teres uma vida recheada de momentos gloriosos e bonitos.

Outro golpe gigantesco, em situação reversa, é a renovação de 13 Reasons Why. Quer se ame ou se odeie esta série produzida por Selena Gomez, a verdade é que ela pôs o mundo a falar sobre temáticas muito problemáticas e que ainda habitam o silêncio e a escuridão. A história de Hannah Baker, uma jovem que foi vítima de bullying e que, mais tarde, decidiu tirar a vida, mostra a urgência destes graves problemas. A saúde mental, o bullying, o suicídio adolescente, são reais. São factos que atormentam provavelmente mais pessoas do que pensamos pelo mundo inteiro. Se a série choca? Sim. Se é cruel no seu retrato? Sim. Se é pertinente? Muito. Porquê? Porque foi precisamente focar-se numa temática real e trouxe-a da forma mais dura possível. A mente adolescente dispara para todos os lados. É uma fase crítica para o ser humano enquanto amadurece. É uma altura da vida em que o acompanhamento familiar e escolar tem de ser mais ativo do que o resto.

Talvez se perguntem: mas qual é o problema de terem renovado a série? O grande problema com a renovação da série é que é o típico caso de “mais olhos que barriga”. Com a polémica, 13 Reasons Why foi um sucesso mundial para os bolsos da Netflix. E, neste caso, o sucesso é inimigo da sua mensagem principal: o de retratar um problema e apelar à sua atenção a uma escala global. Ao renovarem a série, a história de Hannah Baker irá perder a sua credibilidade. É uma atitude impulsiva que irá desmoralizar o próprio enredo e mensagem da série. Teve um início, meio e fim. A história é a de Hannah, qual será a da 2ª temporada? A história dos seus opressores que, de consciência pesada, tiveram desfechos incógnitos? A questão essencial da série é a própria vivência da protagonista enquanto epicentro de toda a narrativa, o restante adorno não é propriamente necessário ao ponto de criarem um seguimento de história. Mas, pelo sim e pelo não, fica a dúvida no ar e, assim que a temporada chegar, veremos como se safaram.

O feminismo é outro aspeto que tem crescido na televisão mas, ele mesmo, sofreu uma perda com a despedida de Orphan Black. A série da BBC America, liderada pela camaleónica Tatiana Maslany está a chegar ao fim e, embora tenha deixado uma marca profunda nos seus fãs, não deixa de ser uma das séries mais prolíficas em torno da temática feminista, entre outras.

Restam apenas algumas séries de televisão socialmente relevantes e, mesmo que sejam renovadas, ainda não encontraram o público que merecem de forma a poderem ser apreciadas de forma mais ampla. Até quando Fresh Off the Boat, Speechless, Insecure, black-ish, How to Get Away with Murder irão durar? Até quando irão os estúdios apostar em retratos sociais diversificados e desprovidos de preconceito? Estas perdas silenciosas poderão comprometer a constante necessidade de uma representação ampla e vasta das minorias.

A esperança é a última a morrer e quem sabe a indústria se esteja constantemente a inovar para que estas questões deixem de ser partilhadas, criticadas ou mencionadas porque é para isso que devemos caminhar: para o sucesso de encontrar uma sociedade sensata, tolerante e diversificada.

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