Cinema Críticas

Crítica: Ghost in the Shell

Ghost in the Shell

Nome: Ghost in the Shell – Agente do Futuro

Título Original: Ghost In The Shell

De: Rupert Sanders

Com: Scarlett Johansson, Takeshi Kitano, Michael Pitt, Juliette Binoche, Peter Ferdinando

Duração: 107 min.

Scarlett Johansson volta a abraçar a ficção científica. A atriz, que já deu provas de se sentir confortável neste tipo de projetos cinematográficos (LucyUnder The Skin) é agora Mira, uma jovem que sofre um grave acidente que destrói o seu corpo físico.

No entanto é resgatada pela empresa Hanka, que se encarrega de preservar o seu cérebro e a sua alma. Eles constroem-lhe um novo corpo robótico, com o principal objetivo de utilizá-la como uma arma inovadora e super eficaz. O primeiro robô detentor de uma capacidade cognitiva semelhante à dos humanos.

Mira passa a ser Major. E Major é única. Por isso não tarda a ser nomeada líder de uma equipa de segurança do setor 9 de Hanka, destinada a lutar contra o ciberterrorismo. A situação complica-se quando surge o vilão da história (Michael Pitt), que hackeia membros importantes da Hanka.

É durante a jornada de combate a esse inimigo que Mira começa a questionar-se sobre a sua própria natureza. Será tudo aquilo de que se recorda da sua vida passada verdade? Ou apenas uma construção feita pela empresa que a resgatou?

Ghost in the Shell trata-se de uma adaptação americana do anime de Mamoru Oshii (1995), que por sua vez trata-se de uma adaptação do manga de Masamune Shirow (1989). Como tal é razoável que tenhamos as nossas reservas quanto à qualidade cinematográfica deste filme.

Sempre que falamos de adaptações ocidentais de trabalhos orientais, dado o histórico de flops no mundo do cinema a esse nível, o medo é compreensível. E o trabalho de Masamune Shirow foi extremamente bem aceite e acarinhado pelo público.

Ghost in the Shell não se livrou de muitos narizes torcidos, mesmo tendo beneficiado de uma exemplar campanha publicitária. O que, a meu ver, é um bocadinho injusto. Uma vez que não estamos perante um mau trabalho, mas sim um projeto que sofre antecipadamente com o estigma. Mas vamos por partes.

Em primeiro lugar é importante falar de uma das maiores qualidades do filme: o cenário futurista e a forma como ele é explorado. Logo no início reparamos que estamos perante uma cidade que mais não é do que um angustiante universo mecanizado de arranha-céus e hologramas.

Por vezes é desagradável observar toda esta panóplia mecanizada. Mas é muito importante que assim seja, pois é um trabalho que pressupõe uma identificação pessoal. Isto porque acaba por reforçar a forma como o espectador analisa os dilemas da personagem principal. Mira dá muitas vezes por si a sentir-se intrusa em tal ambiente robótico, e a questionar se realmente pertence a esse espaço.

Além disso enfatiza os avanços da tecnologia (tão presentes nos nossos dias), e a forma como os mesmos vão cada vez mais reduzindo a essência do ser humano. Um pouco como o que se passa com Mira. Ela vê a sua alma humana aprisionada numa concha robótica. É extremamente engraçado atentarmos nos detalhes que reforçam esta ideia. Os “vendedores” de rua a publicitar upgrades, e até mesmo uma personagem que quer “atualizar” o fígado para poder continuar a beber.

Em segundo lugar temos que falar de Scarlett Johansson. A atriz está na praia dela neste género. É ágil no desempenho de cenas de ação, e o seu olhar frio, desprovido de emoções, mas carregado delas, no qual carne e robótica se fundem com frieza, é espetacular.

Também o restante elenco corresponde às expetativas e corrobora o pretendido. Estamos perante um conjunto de personagens multirraciais, o que nos remete para a própria ideia de evolução e globalização. As personagens falam em línguas diferentes, mas todos se compreendem no ciberespaço. Uma vez que a própria robótica da linguagem é modificada através da tecnologia.

E depois, é a função que a atriz carrega com esta personagem. Mira é um robô humano, que começa a duvidar da sua própria identidade e de tudo aquilo que a rodeia. É como se a personagem se fosse desconstruindo, imergindo num oceano de dúvidas e questionamento. Isto deixa-nos a pensar. Até que ponto a tecnologia nos faz esquecer as pessoas que somos?

Mira é uma linda mulher no seu aspeto exterior, mas, à parte do seu cérebro humano, ela é um conjunto de fios e engrenagens. Não seremos nós também, cada vez mais, assim? Estes são dilemas que o filme nos apresenta, dando-nos carta aberta para uma reflexão muito pessoal sobre o tema.

Ghost in the Shell não é um filme brilhante, mas constitui-se como um bom trabalho, não faltando ao respeito às anteriores versões. É de louvar a coragem e ousadia de Rupert Sanders, que soube publicitar o seu trabalho, lutar contra os burburinhos ingratos relativos ao whitewashing na escolha de Scarlett para sua protagonista, construir personagens e cenários interessantes. E, acima de tudo, dar um cunho próprio a este filme.

Trailer – Ghost in the Shell

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