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The Killing e o noir na televisão

The Killing

Quando pensamos em séries policiais, por norma, mentalizamo-nos que a fórmula de entretenimento fácil em que cada episódio equivale a um caso está presente. Vimos com True Detective que ainda é possível criar um enredo rico e intenso em algo que já é tão banal na televisão. Mas antes de True Detective ter surgido no horário nobre da HBO, The Killing marcava pela diferença na AMC. The Killing conta a história de Sarah Linden e Stephen Holder, dois detectives que são destacados para o caso do homicídio da jovem Rosie Larsen. Rosie foi encontrada sem vida na mala de uma limusine de uma campanha política, amarrada e espancada, no fundo de um lago. Para tornar o caso ainda mais credível, Veena Sud (criadora da série) optou por enquadrar o espectador no sofrimento e pesar da família Larsen, ao mesmo tempo que procura encaminhar o mesmo para a campanha política que parece estar de alguma forma envolvida no homicídio da garota.

Ao contrário de séries policiais como CSI: Crime Scene Investigation ou NCIS e tantas outras, The Killing é um drama humano que revela a verdadeira essência do que é estar-se envolvido num homicídio. Enquanto que em CSI um cabelo encontrado na cena do crime determina quase que por imediato o assassino em questão, em The Killing sentimos as dificuldades do que é construir um caso perante os olhos da lei. A equipa da série inclui, inclusive, os dias com que o caso se constrói, desde as provas que vão gradualmente aparecendo, até aos potenciais suspeitos e ao envolvimento familiar da família Larsen. A riqueza argumentativa de The Killing foca também o drama familiar dos próprios detectives, uma vez que explora o mau exemplo de mãe de Linden e a irreverência de Holder para com os colegas. Diga-se, portanto, que ao fazer uma aproximação realista dos problemas das forças policiais, construindo ritmadamente o seu caso, The Killing é um marco único na televisão. Baseada na série de culto dinamarquesa Forbrydelsen que foi cancelada após três temporadas, The Killing é, sem dúvida, um dos melhores exercícios de televisão no ramo policial.

Assim que o próprio público vai construindo o caso consoante as pistas dadas pela série, é impressionante a maneira como ele se agarra à narrativa, tal e qual como os protagonistas. A necessidade de realismo no drama policial acaba por ser essencial para transmitir credibilidade e coerência, confrontando as premissas megalómanas das suas companheiras de outros canais. Com duas magníficas prestações de Mireille Enos e Joel Kinnaman, a série apresenta-se como uma abordagem intimista e sólida do tema familiar onde uma tragédia é o veículo para unir todos os membros mais distantes. Assim que a AMC cancelou (por duas vezes) a série pelas fracas audiências, a Netflix conseguiu resgatá-la para lhe dar um final decente condensando todo o futuro da mesma em 6 episódios. E, ainda bem que o fez, porque seria inadmissível não dar uma despedida conveniente às extraordinárias personagens principais que se resumem a um trabalho poderoso por parte dos atores. E, embora as saudades aumentem com o passar do tempo, The Killing é, a meu ver, uma série de culto que merece ser vista por todos, não só porque faz história no ramo policial como retrata a sociedade podre que sabemos estar lá, mas que não queremos ver.

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