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Sons of Anarchy: Um conto familiar pelo mundo da máfia moderna

Sons of Anarchy

Jax Teller é o vice-presidente de SAMCRO (Sons of Anarchy Motorcycle Club), um clube que é responsável pela rede de tráfico de armas no Norte da Califórnia e elo de contacto com as diferentes frações raciais criminosas. A instituição, por si só, é uma que prima pelo secretismo e discrição dos seus intervenientes e, para atenuar as coisas a matriarca Gemma Teller (mãe do protagonista) manipula o clube para os seus feitos. O pai de Jax, John, faleceu quando tratava de um negócio de SAMCRO, mas o seu diário revela ao filho a sua triste e infeliz vida enquanto membro do mesmo.

Sons of Anarchy é uma novela dramática que dá um toque de originalidade ao conceito de máfia moderna, onde a criminalidade é o “pão nosso de cada dia”. Enquanto a sede de poder e dinheiro afeta a uns, já outros pretendem seguir o legado de John e quebrar com a rede ilegal que o seu clube protege. As intrigas derivadas dos negócios de SAMCRO vão prejudicando gradualmente as vidas dos elementos e colocam-nos constantemente em situações de vida ou de morte. Este extraordinário arraial de tiros, traições, vinganças e golpes de poder são contados pelos olhos de Kurt Sutter que dá igualmente um leve toque autobiográfico à viagem de Jax e da sua família. As prestações dispensam qualquer tipo de apresentação ou referência, já que todo o elenco assume aqui os melhores papéis das suas carreiras. Katey Sagal, atual esposa de Sutter, é uma femme fatale como Gemma Teller, tornando-se numa das melhores personagens de todos os tempos na televisão; Sagal não só mostra um lado materno excessivamente protetor como também prima pela sua veia “gangster” quando se intromete nos assuntos do clube. O profissionalismo do elenco aliado a uma narrativa repleta de ação e humor subtil culmina numa viagem maravilhosa pelo crime organizado americano. Os tons de máfia italiana também estão presentes assim que o espectador se apercebe que tudo e todos giram em torno do valor (e peso sentimental) da palavra “família”, utilizando-a como um meio de ocultar aos olhos alheios da polícia aquilo que são e de manipular as odes a seu favor. “Família” é provavelmente o termo que mais sobressai em todos os episódios da série e é nesta base que os SAMCRO regem a sua conduta.

À medida que a narrativa avança, a trama começa a cercar o próprio clube e Jax necessita de lidar com os problemas e tentar ilibar a sua família dos mesmos. Nem sempre a visão de Sutter é a melhor, sendo que o ritmo da história vai-se perdendo à medida que se aproxima do fim e o fio condutor da mesma vai enfraquecendo, mas (e um grande “mas”) Sutter consegue captar a atenção do espectador ao colocar os intervenientes da sua novela em situações desconfortáveis e ao explorar as particularidades lunáticas das suas exímias personagens. O enriquecimento espiritual das mesmas e todo o conceito de “irmandade” triunfam acima de qualquer estratagema criminal secundário que é incutido na história. O valor humano é a maior qualidade de Sons of Anarchy. O humor também está lá, com frases curtas e certeiras que funcionam como a “cereja no topo do bolo”, cortando com a forte carga dramática da série. A vida de Jax Teller é uma vida de pecados, mas pecados que ele procura terminar para proporcionar uma vida segura e livre de mentiras para os seus filhos; e, embora SAMCRO seja igualmente a sua família, a linha ténue que separa o conceito parece não querer desaparecer e as tragédias vão-se agravando com o passar do tempo.

Outro aspeto interessante é a troca de papéis assim que o público começa a aperceber-se que os verdadeiros heróis da história são, de facto, os criminosos. Agentes do FBI, polícia e uns quantos outros são vistos com má cara, sendo tratados como personagens maquiavélicas e impiedosas. Vemos constantemente os fora-da-lei brincarem com a situação e esta particularidade da narrativa confere ainda mais credibilidade ao enredo. É, portanto, nestas condições que Sons of Anarchy assume-se como uma série estranhamente viciante, um registo televisivo com caráter e personalidade; uma viagem alucinante pelo novo conceito de máfia e de família.

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