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Rome: A queda de um império

Rome

Estamos nos finais da era romana, Gaius Julius Caesar mata o que ainda resta dos habitantes da Gália e decide regressar a Roma. A comandar as suas tropas está Lucius Vorenus, um centurião com mau feitio mas com grandes habilidades militares e o legionário Titus Pullo que é o seu mais recente companheiro; Pullo é um excelente guerreiro, de personalidade jovial e coração puro, e uma pessoa em que a força ocupa o lugar da inteligência. Juntos forjam uma inigualável e estranha amizade. Caesar anuncia o seu regresso a Roma, o que para Pompeii Magnus significa um ato de guerra. Estes dois soberanos de Roma começam a reunir os seus melhores homens para combater numa das mais emblemáticas histórias bélicas do mundo. Em Roma, Atia dos Julii, sobrinha de Caesar, mostra que uma mulher com poder é uma que pode causar muitos danos a muita gente e que não existe nada que o dinheiro não possa comprar. Atia é amante de Mark Anthony e rival de Servilia, que por sua vez, é amante de Caesar; o ódio crescente entre ambas despoleta inúmeras humilhações, traições, mistérios e rumores que compõem a magnífica narrativa deste curto exercício de televisão.

Produzida pela HBO, Rome é uma narração intimista com foco na decadência do império romano; um retrato talentoso e mordaz de uma sociedade hierárquica fria e cruel. Tudo em Rome é brilhante, desde um elenco adequado (com destaque para Ray Stevenson e Polly Walker) até a um extraordinário design de produção que capta todo o universo magistral do grande império. Quando vemos Rome, muitas vezes esquecemo-nos da própria história, pois ficamos deslumbrados com as belíssimas paisagens e cenários recriados quer dos romanos, quer dos egípcios (sim, a série também explora alguns capítulos no Egipto, que são absolutamente deliciosos). Um guarda-roupa afincado e pormenorizado juntamente com uma exótica banda-sonora de Jeff Beal transformam Rome num triunfo visual.

Apesar de tudo, o argumento, que engloba esta forte porção técnica da série, é também ele palpitante e transpõe-nos para um centro de guerra repleto de golpes de estado elaborados, mesquinhices fatais e uma frieza desprovida de preconceitos que nos é tão característica deste povo que estudávamos na escola. Os homens são viris e mostram o que é ter punho firme no controlo dos seus exércitos e dos ditos “interesses da República”, enquanto as mulheres afirmam-se como eficientes estrategas que, embora se mantenham distantes de assuntos políticos, não têm medo ou vergonha de se espezinharem umas às outras. O espelho social utilizado é, acima de tudo, o maior “truque na manga” de Rome. O aproveitamento de personagens icónicas que se tornaram famosas até aos dias de hoje e o realce da riqueza e da prepotência do seu povo são também pontos a favor. Estamos perante homens e mulheres da alta sociedade e, por muito que tenhamos pena dos escravos sob as suas ordens, facilmente os esquecemos porque eles eram (infelizmente) apenas uma mercadoria, uma moeda de troca, ou seja, objetos descartáveis. O que vemos em Roma não é um 12 Years a Slave, mas uma espécie de 12 Angry Men Movie que dizem saber o que é mais importante para governar uma República.

Até Cleópatra nos mostra o ar de sua (pouca) graça mas ela não é o centro das atenções. As atenções estão todas elas viradas para a dupla Vorenus e Pullo porque estes são os verdadeiros heróis de Rome. São estes dois indivíduos que acarretam ordens diariamente para quem os holofotes estão apontados. E porquê? Porque eles estão no fundo da cadeia alimentar. Eles são o pouco de humanidade que ainda resta nas perigosas ruas de Roma; são a réstia de esperança para presenciarmos os poucos valores morais como bondade, generosidade e pureza que, naquele tempo, escasseavam tanto como as condições de higiene.

Rome não é uma série que se vincule pelo “parecer bem” nem uma que dê destaque a romances; é uma maravilhosa selva, em que os animais em vez de estarem enjaulados, conhecem-se e vão-se matando aos poucos na rua.

Vou ter saudades destas curtas duas temporadas, mas também não quero que a tragam de volta. Está tão perfeita como está que não vale a pena desperdiçarem tempo com uma nova adaptação. Obrigado HBO por estes dias.

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