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How I Met Your Mother ou How I Overrated Your Mother

How I Met Your Mother

Terminei recentemente as nove temporadas da série de sucesso How I Met Your Mother, que foi um fenómeno mundial a nível de audiências. Estamos no ano 2030 e Ted Mosby conta aos seus filhos a história de como conheceu a sua mãe. Mas, pelo meio, surgem muitas aventuras e momentos icónicos que só são possíveis entre amigos e ficamos a conhecer Marshall, Lily, Robin e Barney, os melhores amigos do protagonista. Portanto, somos levados para trás no tempo para assistir ao dia a dia deste grupo divertido de personagens e das suas desventuras amorosas.

Quando FRIENDS (TV Show) terminou em 2004 sentimos a necessidade de nos agarrarmos a uma nova sitcom que nos remetesse para a nostalgia de todo aquele ambiente entre amigos que se assemelha ao nosso próprio meio. Eis que How I Met Your Mother surgiu para preencher essa vaga. É certo que não consegue atingir a mesma qualidade da anterior, nem lá perto, mas é um exercício agradável que procura incutir os mesmos valores e o mesmo estudo de personagens que tanto gostámos em Friends. As personalidades engraçadas e a abordagem leve das temáticas amorosas acabam por surtir efeito, na medida em que o público não resiste às manias do Barney, ao sarcasmo da Robin, às discussões (com pausas) de Lily e Marshall e até mesmo das divagações de Ted. O estudo do núcleo protagonista é bem desenvolvido e proporciona momentos de sorrisos e de algumas (escassas) gargalhadas.

Ao estender-se por 9 temporadas, numa tentativa de obter os resultados de Friends, a série tanto consegue criar momentos simbólicos como parece perde-se nos seus objetivos. A construção das situações com o foco apontado para o galã Barney Stinson acaba por obter resultados incrivelmente criativos e a exploração da sua vivência cosmopolita repleta de ocasiões caricatas e catch phrases abundantes é a razão por que esboçamos uns quantos sorrisos ao longo da série. Barney é uma personificação de tudo aquilo que um indivíduo assume como o ideal de radicalidade e de “modelo a seguir”, no que toca a beber todos os dias, a dormir com todas as mulheres de Nova Iorque e a desprender-se de qualquer intimidade sentimental com as mesmas. Ted é o oposto; é um romântico que só pretende encontrar o amor da sua vida e criar família e é motivo para muitos bocejos com o decorrer das temporadas. Marshall e Lily são o casal que se mantiveram fiéis um ao outro desde o início; a combinação perfeita de defeitos e qualidades que assentam num platonismo amoroso que é praticamente inexistente nos dias de hoje. Robin é a mais recente no grupo, uma ambiciosa jornalista por quem Ted se apaixona desde o primeiro dia mas que, segundo a narração do mesmo, não é a mãe dos seus filhos.

How I Met Your Mother é um exercício de televisão que foi sobrevalorizado com o passar do tempo e, de longe, poder ser apelidada de uma das melhores séries de comédia da atualidade. É agradável sim, engraçada também, mas não é original e vive somente de algumas passagens mais elaboradas, com destaque para o pedido de casamento de Barney e [SPOILER] e para a despedida de solteiro do mesmo. Apesar de ter um estudo interessante de personagens, a série vai perdendo a sua identidade à medida que se aproxima do final e, quando finalmente conhecemos a mãe dos filhos ficamos completamente envolvidos na história ainda que nos sintamos ultrajados pela falta de desenvolvimento da mesma. A Mãe surge como um marco importante no progresso da narrativa até que, de um momento para o outro, se torna em algo descartável, culminando num dos piores finais de séries de que há memória. Carter Bays e Craig Thomas criaram personagens tão peculiares e tão interessantes simplesmente para as destruir no final e dar-lhes perdão é quase impossível.

Enquanto Friends se assumia como uma jornada sobre a transição entre a vida de solteiro com a vida de adulto e mantém o seu registo de maturação gradual, How I Met Your Mother encaminha-nos para isso mas deita tudo a perder ao manter as suas personagens no limbo da idiotice.

Mas, claro, deixou a sua marca e qualquer um de nós tem bem presente na memória o Let’s Go to the Mall da Robin Sparkles, os nicknames amorosos Marshmallow e Lilypad, as genialidades gramaticais de Barney como o “legen…wait for it…dary”, “challenge accepted” entre muitos outros. São momentos engraçados mas não são suficientes para fazer história e, de facto, a evolução de comédia para novela também não ajudou. A constante alteração da componente amorosa que varia entre o aceitável e o lamechas acaba por deitar a perder a consistência do seu argumento divertido e, naquilo que parece ser uma tentativa de amadurecer os seus protagonistas, acaba por ser um insulto, no final, aos mesmos. No entanto, há que admitir que apesar de não ter sido “legendary” acabou por ser uma viagem engraçada com que nos vamos identificando à medida que envelhecemos e nos estruturamos como indivíduos.

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