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Freaks and Geeks: Uma pequena pérola de aberrações e nerds

Freaks and Geeks

Em 1999, a dupla Judd Apatow e Paul Feig fazia o sucesso (pelo menos a nível qualitativo) na escrita e produção de Freaks and Geeks, uma série que abordava o dia-a-dia de duas frações sociais de jovens num colégio norte-americano. Contado com doses de humor magnificamente subtis e dramas típicos da idade de foco, esta pequena pérola televisiva foi a responsável pelo impulso das carreiras de Linda Cardellini, Seth Rogen, James Franco e Jason Segel.

Lindsay e Sam Weir (Linda Cardellini e John Francis Daley) são dois irmãos que têm tanto de diferente quanto de semelhante um com o outro: Lindsay tenta mostrar um lado rebelde ao juntar-se aos chamados “freaks” – um grupo de jovem cuja conduta consiste em fazer asneiras, desafiar a autoridade e mostrar que quem faz sexo no secundário é que é fixe – e Sam, mais novo, pertence à fração dos “geeks” – grupo de miúdos que são vistos como fracos em experiência de vida, mas com uma inteligência invulgar, aplicados na escola e com um gosto requintado por ficção científica.

A maior fase das nossas vidas consiste no crescimento gradual da nossa mente, desde os atos de rebeldia precoces à conceção de que a transição para a idade adulta nunca é como nós pensamos. Lindsay, por exemplo, é uma aluna brilhante e aplicada que se apercebe de que a sua vida necessita de uma mudança radical e nada melhor do que se juntar àqueles que se assumem como o oposto de tudo o que ela é; já Sam é um rapaz recatado, que saboreia os momentos com os seus amigos e se lança cautelosamente no caminho do amor. Estas etapas nas vidas dos protagonistas não poderiam ser mais deliciosas sem os seus amigos; amigos estes que projetam o conceito de adolescente com uma veracidade incrivelmente realista. Sam só tem dois amigos, Bill Haverchuck (Martin Starr) e Neal Schweiber (Samm Levine) – dois divertidos colegas que partilham das mesmas frustrações de Sam, que consistem na precária aptidão nas aulas de Educação Física, timidez em conversar com miúdas e em servir de bobos da corte para os mais velhos. Já Lindsay juntou-se a um grupo mais vasto, sendo membros Kim Kelly (Busy Philipps) e o seu namorado Daniel Desario (James Franco), o irreverente Ken Miller (Seth Rogen) e o aluado Nick Andopolis (Jason Segel). Os amigos de Lindsay são os enfants térribles que encarnam o pesadelo de qualquer figura paternal, quer dos próprios, quer dos de Lindsay que apercebem-se que a filha poderá desviar-se do seu percurso escolar promissor. Com personalidades vincadas e um pouco de todo o nosso próprio percurso de vida, os “Freaks” vão revelando os motivos por se se tornarem elementos alheios ao estudo e às constantes idas ao gabinete do Diretor Rosso por insubordinação; estas características tornam Freaks and Geeks não só numa obra-prima televisiva a nível criativo, como consegue captar o espírito americano (e de alguma forma Português) da vivência no ensino secundário, da transformação de criança em adulto e dos problemas típicos da fase de rebeldia que nós, enquanto indivíduos, experienciamos.

Outro ponto maravilhoso em Freaks and Geeks é que os pais também recebem destaque, especialmente os dos protagonistas. Becky Ann Baker e Joe Flaherty são dois nomes pouco sonantes, mas superam as espectativas ao encarnarem na perfeição dois progenitores que necessitam de acompanhar os filhos para entender os seus devaneios. Num registo muito carinhoso e divertido, Jean e Harold Weir estão também eles em fase de mudança: lidar com o crescimento dos seus filhos e tentarem mostrar que conseguem acompanhar a malta nova nas fases mais difíceis do seu crescimento. [O pequeno momento em que os papás Weir ouvem um vinil dos The Who arranca uma das melhores cenas da série].

A banda-sonora, baseada nos êxitos dos clássicos de rock dos anos 80 (esqueci-me de mencionar que a série está inserida nessa altura) em que John Bonham “rasgava” a bateria dos Led Zeppelin e que os The Who revolucionavam a América com as suas letras pouco convencionais, também ela desempenha um papel fulcral para tornar Freaks and Geeks num must-see televisivo que é quase obrigatório para todos. Posto isto, a série parecia ter tudo para ser bem-sucedida mas foi cancelada ao fim de 18 episódios; não sei bem avaliar se deveriam ter continuado, está tão perfeito como está… mas, sem dúvida que ficamos com um travo amargo na boca porque mais era sempre bem-vindo.

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